Considerado o sucessor ao adventure "Wasteland", o RPG "Fallout" foi um dos grandes sucessos da Interplay, e merecidamente. Em sua série principal, o jogo oferecia uma vasta gama de opções em se tratando de atividades dentro da trama, e foi um dos títulos que mais oferecia liberdade de ações – e grande parte delas alavancavam outros desdobramentos. Matar determinado personagem ou não fazia com que a percepção de seu herói ou heroína mudasse em relação aos outros, e aí por diante. Eis que a Interplay passou por poucas e boas em 2004, quase fechando suas portas, deixando incerto o destino desta franquia e de tantas outras. Para o alívio dos fãs, a Bethesda Softworks comprou os direitos de "Fallout" – e de quebra, uma versão online a cargo da Interplay para uma data a ser confirmada – e acaba de lançar Fallout 3, o mais novo capítulo da saga pós-apocalíptica atualizada para os sistemas de hoje.
"Fallout 3" é ambientado em 2277, duzentos anos após a grande guerra que devastou o planeta e tornou-o um lugar inóspito, um grande deserto radioativo. Desta vez, o jogador é um dos moradores do Vault 101, um dos abrigos subterrâneos da humanidade. A situação começa a se complicar quando seu pai, um cientista, resolve fugir das instalações – batendo de frente com toda a crença de que "quem nasce no abrigo, cresce e morre no abrigo" defendida pelo todo-poderoso supervisor. Quebrando as regras, o jogador é levado a explorar o mundo exterior pela primeira vez, descobrindo um mundo devastado pela radiação. Beirando a total falta de leis, os agrupamentos de humanos se abrigam como podem: seja em cidades construídas do zero com materiais que sobraram ou aproveitando-se de estruturas que se mantiveram de pé, por incrível que pareça. Sem contar as terríveis criaturas afetadas por mutações – de moscas e baratas a cachorros... e como é de se esperar, humanos também estão nessa. Enfim, é um terrível futuro que os jogadores adorarão conhecer.
Assim como nos games anteriores da série, o jogador começa criando seu próprio protagonista, podendo escolher sexo, nome, etnia (com direito a uma projeção de como será quando for adulto) e um editor de personagens que remete bastante ao de "The Elder Scrolls IV: Oblivion". Nós falamos em "projeção da fase adulta", não é? É isso mesmo: desta vez, o jogador acompanha seu personagem precisamente desde o nascimento, pulando para sua infância e adolescência antes de se tornar um jovem adulto. Cada uma destas fases é jogável dentro do abrigo, envolvendo ações e decisões que afetam os atributos de seu personagem, como o livrinho de bebê "You're Special" (sendo SPECIAL o nome do sistema de atributos de personagem da série, como Força, Resistência, Carisma, Agilidade etc...) e o teste de aptidão na fase adolescente (um questionário de múltipla escolha indicará se seu personagem resolverá as coisas furtivamente, usará seu carisma ou terá uma inclinação à violência). No decorrer da aventura, passar de nível oferece pontos para as habilidades e um perk novo por vez. Todas estas informações de personagem -- status, inventário, mapa e controle de missões e aí por diante – podem ser conferidas no Pip-Boy 3000, um computador de braço que é visível ao pressionar o botão B.
Para os puristas da série, não se preocupem: apesar de se tratar de um game em primeira pessoa – até dá para trocar para terceira pessoa, mas parece que a lição não foi bem aprendida pela Bethesda -– "Fallout 3" não foi transformado em um FPS de sair correndo e atirando freneticamente. Enquanto é possível partir para o combate tal qual neste gênero, nem sempre vale a pena; costuma ser mais eficiente usar o tradicional esquema de AP (Pontos de Ação) e a mira assistida VATS – mostrando a chance de acerto por parte do corpo, e o estado de cada um destes – mesmo porque certos inimigos têm pontos mais vulneráveis para se levar em conta, como alguns insetos e suas antenas. Ao combater com esta função, algumas tomadas de câmera mais dramáticas mostram o resultado da ação – e podem ter certeza de que este jogo é visualmente violento até dizer chega. Desmembramentos e pulverização são comuns dependendo da arma usada, e se o ataque valeu um dano crítico no infeliz do lado errado da arma.
Mas por mais que o combate seja maneiro, fica a dica: mesmo que não se trate de uma situação similar aos "survival horrors" de outrora, não dá para sair usando a munição indiscriminadamente. É tudo questão de saber economizar suas balas - você não vai querer desperdiçar uma poderosa minigun em um rato-toupeira mutante, certo? Sem contar que as armas têm durabilidade; à medida que são usadas, vão perdendo sua precisão e dano, assim tornando necessário consertá-las. Nestas horas é bom ter a habilidade Repair alta, ou se rolar aquela preguiça ache alguém que possa fazê-lo por você. O mesmo se aplica às armaduras e capacetes. O negócio é sair coletando os itens de seus inimigos, seja para ter material de reparo ou para fazer escambo com outros habitantes... no entanto, não se sobrecarregue demais, senão seu personagem não conseguirá se mover rapidamente – o que pode equivaler a morte se cercado de inimigos, e isso você não quer.
A estrutura de missões do game continua muito interessante e variada. Certas atividades só aparecem se seu personagem tiver os "perks" – características como Lady Killer (vantagem no combate contra mulheres, ou o exato oposto, diálogos repletos de lábia com) ou habilidades altas como o Speech (aumentando a chance de convencer as pessoas de algo vantajoso a você, negociar, etc...) e Computers (diminuindo a dificuldade na hora de hackear computadores). Um exemplo do início do game envolve a cidade de Megaton, construída em volta de uma ogiva nuclear que pode explodir a qualquer momento. Um forasteiro oferece uma recompensa para detoná-la e fazê-la sumir do mapa, enquanto xerife / prefeito da cidade quer que você a desarme... o que vai desagradar os seguidores da seita Children of the Atom, que idolatram a bomba e o poder atômico. As opções são variadas: aceitar a proposta e explodir a cidade, aceitar a proposta e dedurar o forasteiro para o xerife... sendo que há uma gama bem variada de possibilidades e desdobramentos para cada missão encontrada no game. Cada ação tomada pesa em karma positivo ou negativo para seu personagem.
O game oferece uma grande variedade de atividades, contribuindo para sua duração básica. Se o jogador for um completista então, danou-se: só de tentar ver os finais um pouco diferentes e a possibilidade de reinventar personagens completamente diferentes do zero – seja em relação às habilidades escolhidas, assim como os atributos e a índole propriamente dita... afinal de contas, todas estas apresentam diferenças em relação ao jeito como se interage com o mundo e com os personagens – Fallout 3 ganha uma longevidade invejável.
A direção de arte de Fallout 3 impressiona. O esmero do game fica mais claro em relação aos cenários do que aos personagens, que apesar de melhores do que os de Oblivion vez por outra agem de forma estranha. Mas voltemos aos cenários: os detalhes como pichações, cartazes, mobília, tudo passa uma impressão bem realista. O mapa é bem amplo, às vezes até mesmo a ponto do jogador achar que está no meio do nada enquanto viaja de uma localidade à outra. Felizmente, ainda existe aquele esquema de navegar automaticamente para cidades que já foram visitadas – na verdade, "automaticamente" é força de expressão: sim, o tempo passará entre sua origem e destino, então periga seu personagem chegar seja lá onde for de noite ou de manhã. De qualquer forma, dá para dizer que o senso de descoberta ao chegar em uma nova cidade funciona bem para o clima do game. Como é de se esperar, a maioria dos cenários tem aquele tom mais terroso, desértico; apesar do holocausto nuclear do game ter acontecido em 2077, a propaganda estilo anos 50 persiste e se faz presente nas telas de carregamento, produtos e cartazes.
A parte sonora do game é praticamente irrepreensível. A trilha incidental de Inon Zur é muito precisa, com passagens que transmitem climas de tensão, abandono, isolamento, cada qual na hora mais apropriada. Ah, sim: finalmente a produtora consegue os direitos de inclusão da canção "I Don't Want to Set the World on Fire", do grupo vocal The Ink Spots, na seqüência de abertura. Quanto aos efeitos sonoros, estes são bem convincentes -- a hora da seleção de alvo no VATS tem os mesmos barulhinhos do Fallout original, o que fará os fãs das antigas se sentirem em casa – e os sons de armas são bem impactantes, ainda mais na hora da dramática câmera lenta no disparo final contra um inimigo. Os barulhos dos inimigos, principalmente os insetos, é enervante (e isto não é uma reclamação). A dublagem é muito bem realizada, sem canastrices, e até mesmo os maiores absurdos em se tratando da trama deixam o jogador pensando "eu não acredito que este personagem falou tal coisa com tal naturalidade". Ah, sim: novamente, Ron Perlman é o narrador do jogo, mas a escalação de astros de Hollywood não termina por aí. Liam Neeson faz o papel do pai de seu personagem -- ou pelo menos a voz, já que o visual dele é diretamente ligado às feições de seu herói. Tem mais, mas preferimos evitar os spoilers.
Como é de se esperar, um jogo com a complexidade a que Fallout 3 se propõe não é imune a falhas. Bugs bestas como personagens que não querem dar a volta em outros na hora em que estão caminhando na cidade, alguns bichos presos no cenário e outras esquisitices acontecem de vez em quando, mas felizmente não é nada que estrague o jogo. Outro elemento que pode ser um pouco estranho são algumas frases repetidas por parte dos cidadãos comuns das cidades... não chega a ser o "stop right there, criminal scum" dos guardas de Oblivion, mas com o tempo o jogador se pegará repetindo as frases instintivamente.
"Fallout 3" é um inferno radioativo que vale a pena visitar, sem sombra de dúvida. A Bethesda fez um ótimo trabalho ao transpor o clima da franquia original da Interplay para a geração atual ao não "emburrecer" o sistema original em função de uma versão console (estamos olhando para você mesmo, "Deus Ex: Invisible War"). Quem quiser jogar no estilo FPS pode jogar, mas quem der preferência ao esquema de mira localizada e pontos de ação terá vantagem. O esquema de criação e origem do personagem é realizado de forma inteligente e amarrada à trama, que prende o jogador pela curiosidade de explorar o mundo devastado pela guerra, personagens e situações são críveis. A variedade de soluções e alternativas para as missões oferecidas pelo game impressiona, e a direção audiovisual faz bonito. Mesmo que um game ambicioso como este não seja perfeito – há o ocasional bug de NPCs que se esbarram, inimigos entrando no cenário, e tal -- "Fallout 3" certamente não faz feio, seja para os fãs da franquia ou admiradores dos gêneros RPG e ação ao mesclá-los com sucesso.








