Dizem que quando uma boa franquia de jogos apodrece, um LocoRoco – ser provido de fofura extrema - morre em algum lugar do mundo. É inegável que realmente bate uma profunda tristeza ver uma franquia bacana virar algo abominável, seja lá qual for o motivo. Na indústria dos jogos existem vários exemplos, alguns mais notórios do que outros, como é a triste história de Sonic e suas recentes investidas negativas.
Outros exemplos puxam a memória dos mais velhos, aqueles que viveram a era dourada dos jogos onde a criatividade dos produtores parecia infindável e a safra de excelentes títulos só aumentava dia após dia. A série Desperados infelizmente pode ser citada aqui. Lançada em 2001 para o PC, a série pegava carona no sucesso de outro grande clássico dos títulos de estratégia em tempo real, Commandos. O game tinha uma premissa diferente do que se via na época. Ao invés de controlar toda uma horda de soldados e administrar inúmeras construções e captação de recursos, o jogador decidia o destino de poucos personagens, entre eles John Cooper, personagem principal da trama.
O primeiro game realmente foi excelente, oferecendo um nível de desafio muito superior ao que era visto na época, graças às suas inúmeras variáveis táticas e jogabilidade bastante robusta. Logo depois veio Desperados 2: Cooper's Revenge, também para PC. A segunda versão foi lançada em 2006 e tinha como principal novidade seu mundo totalmente em 3D. A jogabilidade não era tão boa quanto a do primeiro game, mas o título tentava manter sua essência ao colocar o jogador em uma história de velho oeste cheia de reviravoltas.
Infelizmente, a série não conseguiu se reerguer em sua terceira versão, tornando-se praticamente o inverso do que foi visto no primeiro game. Nesta terceira versão a jogabilidade sofreu inúmeras quedas em seu desempenho, apesar da presença de algumas novidades. Os comandos são truncados e o título não progride muito bem. Não chega a ser injogável, mas várias pequenas coisas poderiam ser mais bem implementadas. O resultado é um game que não tem um andamento tão bacana quanto o presente nas versões anteriores, mostrando-se um verdadeiro martírio estressando mais do que divertindo.
Em primeiro lugar, as pessoas responsáveis pela história do game parecem ter perdido o fio da meada na hora de sua concepção. Os acontecimentos são confusos e ''largados'', e a impressão é que usaram qualquer idéia boba para que o título pudesse ser feito. Aquele clima épico de faroeste se foi e toda a magia dos antigos tiroteios e fugas a cavalo acabou por se esvair. Desta forma, o game começa de uma maneira que parece não fazer muito sentido, mesmo após o jogador assistir todas as suas sequências de ''animação'', no caso pequenas projeções de imagens estáticas aquareladas e com um filtro que dá a impressão de que estamos observando uma tela de pintura, mas que na realidade pouco engana.
Veteranos neste tipo de game sabem que a melhor coisa a ser feita em um jogo assim é acompanhar primeiro seu tutorial já que de uma versão para outra sempre existem algumas mudanças que nem sempre são triviais de se adaptar ou intuitivas o suficiente, e este caso não é diferente. Como é de praxe na série, o jogador tem a chance de controlar vários personagens ao mesmo tempo, cada um com poderes diferentes. Infelizmente o tutorial aborda somente alguns destes personagens, dando ao jogador apenas uma idéia do que pode ser feito com todas as habilidades.
O tutorial é bem prático e fácil e de fato dá ao jogador uma boa ideia de como as coisas funcionam, além de apresentar as principais novidades como é o sistema de combos que combina habilidades de diferentes personagens, criando um efeito distinto nesta fusão. Entretanto a coisa começa a ficar complicada de verdade na primeira missão do game, onde o jogador precisa pôr em prática tudo aquilo que assimilou no treinamento.
O grande problema de Helldorado: Conspiracy é a falta de autonomia de seus personagens. Qualquer ação deve ser definida pelo jogador previamente e caso algum imprevisto aconteça, diga adeus a toda sua estratégia minuciosamente preparada. Torna-se um jogo de tentativa e erro onde a sua paciência é o limite para as ações. Por exemplo, o game oferece uma mecânica de macros onde um número limitado de ações é definido previamente para cada personagem e depois executado através de um simples menu. Algumas vezes isso funciona, porém existem tantas variáveis possíveis, como range de visão do adversário ou o barulho que suas ações faz, que a coisa toda se torna muito imprevisível.
Desta forma, caso alguma de suas ações seja interrompida, tudo vai por água abaixo pelo simples fato de seus personagens não fazerem absolutamente nada diante dos adversários. Diferente de outros games do estilo, eles são totalmente dependentes de seus comandos e a coisa acaba descambando para o caos total já que já é complicado controlar um único personagem devido à jogabilidade travada, imagine então três ou quatro deles, totalmente dependentes! Outro problema está relacionado ao dano recebido pelos ataques adversários. Seus personagens são extremamente frágeis e morrem com pouquíssimos ataques. Esta preocupação com o realismo é extremamente dúbia já que, se por um lado você é frágil a machadadas e balas, por outro é difícil ver alguém que não teria qualquer tipo de reação ao ver um cowboy correndo em sua direção com uma arma de fogo em punho ou perceber que uma banana de dinamite está prestes a explodir bem em seus pés.
Os objetivos não são muito variados. Geralmente estamos lidando com missões que envolvem a captura de determinados objetos ou armas, além do assassinato de personagens chave dentro da trama. Mesmo assim, o desenvolvimento das missões não chega a ser exatamente variado já que o procedimento geralmente é sempre o mesmo, mudando somente a maneira que você faz as coisas. Uma forma de deixar as coisas mais interessantes e inteligentes seria permitir que os personagens tivessem algum tipo de interação com os cenários na hora de elaborar as estratégias de ataque e infiltração, mas infelizmente não temos algo deste tipo no jogo, o que torna as coisas ainda mais complicadas.
A parte gráfica de Helldorado: Conspiracy aparenta estar pior que a de sua versão anterior. Os personagens parecem descolados do cenário, como se não fizessem parte daquele ambiente. A impressão que dá é que eles estão em uma espécie de Chroma Key, técnica utilizada na TV e Cinema onde um fundo azul é substituído por outra cena, inserindo os personagens em um contexto qualquer. O problema é que o game lembra os primeiros usos deste sistema onde ainda não havia um total domínio da técnica, combinando a iluminação do cenário real com aquela incidente nos personagens, dando a impressão de que eles não fazem parte daquele lugar.
As animações também são péssimas e o uso do engine de física PhysX em nada ajudou a criar um game mais verossímil. Pelo contrário, a impressão que passa é de que o sistema é pouco utilizando, fazendo mais presença nas cenas de morte dos personagens, que por sua vez caem como sacos de batata no chão. As partículas também são péssimas, utilizando sprites transparentes em baixa resolução e não uma simulação que use a física empregada. E para terminar, texturas ruins e em baixa resolução, algumas com a aparência de que foram esticadas, apresentando aquelas ''quebras'' onde vários quadrados podem ser vistos graças à baixa resolução.
O som do game possui alguns bugs estranhos como músicas que param na metade e se repetem do nada além de dublagens bastante canastronas e algumas até mesmo irritantes como é o caso daquela empregada durante a fase de treinamento. Os efeitos sonoros são simplórios e sem inspiração, servindo mais como alerta sonoro para algumas ações do que como ferramenta que possa contribuir para a imersão do game.
Helldorado: Conspiracy peca em vários aspectos, mas o maior agravante são os problemas presentes na jogabilidade do game. Os personagens são totalmente dependentes das ações do jogador, isso significa que eles não tomarão qualquer tipo de atitude mesmo que sejam ameaçados de morte ou alguém jogue uma banana de dinamite aos seus pés. O título até tenta ajudar o jogador acrescentando algumas mecânicas, entre elas possibilidade de criar pequenas macros com ações pré-definidas de seus personagens, além de ser possível combinar algumas habilidades entre os personagens, mas nada disso consegue salvar o game, que realmente ficou bem ruim. Uma verdadeira pena.












