Metal Gear Solid, Splinter Cell, Assassin's Creed, Tenchu. Hoje em dia é possível apontar inúmeros jogos que mesclam elementos de ação e furtividade no mercado. O pai desse gênero é Metal Gear, um jogo que, por ironia do destino e por conta da limitação do hardware de sua época, incentivava o jogador a evitar, a todo custo, confrontos diretos com os inimigos. Dessa forma criou-se um subgênero de ação onde controlamos um personagem que na maioria das vezes usa o cenário ao seu redor para burlar os adversários, ou dar conta dele sem alertar os demais. Velvet Assassin é um jogo que pesca alguns dos recursos desses games, e traz uma novidade: uma mulher no comando. Esse definitivamente não é o problema do jogo, muito pelo contrário. O real dilema fica das promessas da produtora como "um sistema de combate furtivo fora de série" e "uma das mais inovadoras perspectivas aplicadas a um jogo", coisas que não chegaram nem perto de serem concretizadas. Isso sem falar em tudo que eles queriam construir quando o jogo foi anunciado em 2002 como Sabotage 1943 para Xbox original.
O produto da Replay Studios é baseado no relato real da espiã britânica Violette Szabo, que esteve ativa durante a Segunda Guerra Mundial. No game, a protagonista é a agente secreta Violette Summer e sua missão é invadir furtivamente as defesas alemãs em uma Paris invadida e dar de conta de missões perigosas que incluem destruição e assassinatos. O jogador faz isso usando as habilidades da espiã, que se esgueira para se aproximar das vítimas sem ser notada, ou atira usando sua arma com silenciador. Ela também pode assobiar para chamar a atenção de inimigos próximos e olhar por fechaduras para observar o cômodo ao lado. Todas essas técnicas são ok, mas em um jogo de ação furtiva, não poder interagir com o cenário, recostando em paredes, por exemplo, é quase inaceitável hoje em dia. A interatividade é limitada a banheiros públicos e armários, que podem ser usados como esconderijo. Também não conseguimos descobrir porque a agente não consegue andar – ou ela corre ou anda agachada. A sensação que ficou é de uma grande limitação, pois não há muitas opções para o jogador.
O jogo todo, na verdade, é uma espécie de sonho de Violette, que nesse momento se encontra entre a vida e a morte em um hospital francês. Esse foi o gancho usado para dois aspectos inusitados dentro do jogo. O primeiro deles, e principal, é o modo "morfina". Injeções encontradas durante as missões permitem que ela, por alguns segundos, possa correr na direção de um inimigo com a cena congelada. Há momentos em que o uso dessa injeção é imprescindível, pois uma aproximação de frente é impossível. O segundo aspecto é que nesse modo Violette aparece com a camisola com renda que ela está usando no hospital, e não vimos nenhum outro motivo para isso na trama exceto o mais puro fan service.
Aproveitando a deixa, existem dois tipos de roupas que ela usa normalmente durante o jogo e que altera totalmente a gameplay. A convencional, menos barulhenta e usada para ação furtiva propriamente dita. A segunda é um uniforme de uma SS alemã, e isso permite que ela ande quase tranquilamente em direção aos seus objetivos, mas qualquer aproximação "não-permitida" acaba com seu disfarce. O chato é que isso inclui uma aproximação involuntária dos alemães, caso você esteja em seu "way point", ou seja, no caminho pré-determinado que ele vai traçar. O jogo também usa como desculpa as botas barulhentas dessa roupa para impedir que você se aproxime de um inimigo pelas costas sem ser notado. Uma barra no centro da tela mostrará o quanto o disfarce está funcionando, e quanto menor for o medidor e mais fortes os batimentos cardíacos, maiores as chances de ser descoberto.
Velvet Assassin também oferece a chance de usarmos armas de fogo quando o recurso da furtividade não funcionar. Violette começa com uma faca e uma pistola com silenciador, porém mais para frente poderá trocar por uma pistola alemã, descolar uma espingarda e mais. No entanto as armas obtidas em uma fase, na maioria das vezes, não podem ser levadas para a seguinte, e também não importa quantos alemães armados você matar: suas armas e munições não podem ser coletadas. De qualquer forma, o sistema de combate/tiro não é dos melhores: utilizar a faca é o mesmo que pedir para voltar ao último checkpoint, porque é quase impossível acertar um oponente, e mesmo que o faça ele certamente o matará. Atirar de longe é uma boa opção, ainda mais que esses alemães, embora tenham ouvido de tuberculoso, não enxergam um palmo à sua frente às vezes.
A IA de Velvet Assassin é um dos seus maiores problemas. As ações que os inimigos tomam ou deixam de tomar nem sempre passam credibilidade ao jogador. Se você assobiar, correr ou pisar em cacos eles virão exatamente na sua direção, e eles não ignoram um corpo quando avistam um. Mas se você se aproximar de frente e mantiver certa distância, poderá atirar sem maiores problemas. Mesmo estando aparentemente "visível", eles nem sempre percebem, nem mesmo quando você abre uma porta na frente deles. Houve uma cena em que por não ter como saber onde estavam os inimigos, tivemos que abrir a porta e checar, isto é, apertar o botão e aparecer no cômodo seguinte. Para nossa surpresa havia quatro inimigos à nossa direita, e um deles a menos de três metros, mas antes que ele percebesse nossa presença, voltamos pela mesma porta sem que Violette fosse detectada. Há também um bug nas grades que impede o inimigo de vê-la. Mesmo ele estando logo atrás, só conseguirá enxergá-la se pularmos a grade – e mesmo no meio dessa ação ele não reagirá até que ela esteja completamente à sua frente.
Apesar disso tudo, talvez o que mais incomode mesmo em Velvet Assassin seja outras precariedades em vários pontos do jogo, a maneira como certas coisas foram implementadas. Podemos citar, por exemplo, que muitas ações como abrir portas, subir em escadas e usar itens não possuem animações próprias, e quando elas existem, são cortadas de forma que você, por exemplo, não vê Violette iniciar um movimento de subir uma escada e nem de terminar o processo – telas pretas de um segundo cada substituem essas cenas. Os inimigos podem abrir portas e soar o alarme, mas, mesmo sem motivo aparente, eles não o fazem em todas, ou seja, há sempre um local seguro "forçado" atrás de certas portas. Há também situações incômodas envolvendo inimigos em movimento. Para poder realizar uma "stealth kill" neles é preciso "entrar" em seu waypoint, isto é, segui-lo por todo o trajeto que ele fizer até que ele pare, e isso às vezes envolve muitos metros de perseguição, visto que agachada a agente não se movimenta tão rápido quanto eles. Outro ponto negativo que podemos citar são as vezes em precisamos esperar dois alemães acabarem de conversar para que se dispersem e possamos dar prosseguimento. Geralmente seus diálogos são demorados e inúteis, e essas passagens são bastante anticlimáticas.
Em termos de efeitos sonoros, Velvet Assassin possui algumas pouquíssimas e tristonhas músicas com aquele clima típico de Segunda Guerra Mundial, sons de tiros, alemães gritando palavras incompreensíveis (para quem não conhece o idioma). Os melhores sons certamente são os de quando Violette realiza stealth kills e corta ou perfura os alemães, realmente bem críveis. Houve um som em particular, porém, que nos causou um pouco de desconforto: o irritante pisar da personagem com suas botas de agente alemã. Elas literalmente fazem um grande esporro, causando um grande contraste com o restante do jogo, e tivemos até que baixar o volume dos efeitos sonoros para darmos prosseguimento.
O visual do título não é dos piores, mas tem suas óbvias limitações. Por um lado temos cenários produzidos razoavelmente bem – embora a longevidade de algumas missões possa tornar alguns deles um pouco repetitivos – e o uso extensivo de filtros visuais que dão aquele tom de coisa velha em campos abertos. O modelo da personagem principal é bem interessante, mesmo com sua bizarra aura púrpura e penteado estranho, por sinal bastante comum na época – mas cremos que não no campo de batalha. Existem alguns modelos distintos no exército nazista, e apesar da óbvia repetição isso não incomoda tanto. O que realmente nos deixou insatisfeitos foi no departamento de animação. Enquanto Violette é capaz de assassinar suas vítimas de várias maneiras distintas (duas cenas de corte de garganta, duas ou três de estocada nas costas, remoção de máscara de gás em ambiente envenenado, facada na virilha, etc.), ela não possui outras básicas como abrir portas. Nem seu assobio é acompanhado de movimento labial – exceto por um esporádico "mastigar".
Nem Sam Fischer, nem Solid Snake. A aventura da agente inglesa Violette Summer não possui nem de perto a mesma qualidade dos games da Ubisoft e Konami, respectivamente. Um jogo com muitos defeitos e pouca variedade que acaba gerando um involuntariamente um clima de monotonia. É difícil ficar realmente empolgado com a maneira como as coisas no jogo acontecem, e a trama foi feita de uma forma que não passa nenhum sentimento de amor ou ódio pela protagonista. Ela apenas está ali, e para o jogador não faz diferença se ela vive ou morre – exceto que a segunda alternativa nos força a refazermos passos. Velvet Assassin não consegue nem mesmo melhorar ou desenvolver os clichês que ele mesmo usa e abusa, e o apelo forçado nas curvas da protagonista pode ser confirmado em várias situações anticlimáticas. Se da próxima vez a Replay Studios se focar mais nos elementos do próprio jogo e deixar um pouco de lado esse negócio de roupas de couro ou camisola de renda, talvez ela consiga ter êxito, porque dá para perceber que houve um potencial perdido nesse trabalho.











