Lançado em 1991, "Final Fantasy IV" - chegou ao ocidente com o nome "Final Fantasy II" - é um daqueles jogos que abriu as portas do gênero RPG para toda uma geração de jogadores. Originalmente planejado para o Nintendinho, o game acabou sendo lançado somente para o Super NES; mesmo com uma apresentação visual mais humilde do que o sistema poderia oferecer - "Final Fantasy VI" (ou "Final Fantasy III") servem de prova - a trama envolvente, personagens carismáticos e a enorme aventura o tornaram um clássico. Recebendo remakes para o GBA e DS, o título ganhou uma sobrevida e potencial para ganhar novos fãs. Em 2008, a saga teve continuidade em "Final Fantasy IV The After: Return of the Moon", RPG episódico para celulares exclusivo ao Japão... e por muito tempo, nem sinal deste ser lançado no Ocidente.
Com o tempo, a Square Enix lançou o game na região via WiiWare; renomeado "Final Fantasy IV: The After Years", o game é ambientado 17 anos após o final do game original. O jogador controla o príncipe Ceodore, filho de Cecil Harvey e Rosa Farrell, protagonistas do jogo original. Em meio ao seu treinamento para se tornar um cavaleiro e integrante dos Red Wings - força de elite aérea do reino de Baron - algo inesperado acontece: uma segunda lua aparece no céu, e monstros voltam a aterrorizar o mundo. Cabe ao jovem investigar esta nova ameaça, com a ajuda de amigos conhecidos do game anterior e novos personagens. A narrativa do game é fragmentada, pois como a Square Enix dividiu o jogo em episódios, é possível ver a trama através de personagens diferentes. Uma hora você joga com Ceodore e seu misterioso companheiro de capuz; em outra, é possível controlar Cecil, Rosa e Cid, e por aí vai.
O game mantém o sistema de combate clássico da série, o Active Time Battle, mas conta com algumas novidades. Uma delas é o sistema de fases da lua, que afeta diretamente nos ataques e magias do jogador: em determinadas fases, o ataque físico é melhorado, e em outras piorado... o mesmo pode se aplicar aos tipos de magia do jogo, o que dá um elemento extra de estratégia a ser considerado. Além disto, certos monstros raros só aparecem em fases específicas da lua. Outra novidade é o Band System, onde personagens bem relacionados podem realizar ataques conjuntos. Muitos destes são destrancáveis durante a trama, então vale experimentar isto com personagens de elos fortes (amizade, casamento, família, etc...). Ao procurar por Bands possíveis no meio das batalhas, é possível descobri-los: quando aprendidos, sua primeira execução não gasta magic points, mas as seguintes sim.
Assim como na versão para celulares, "The After Years" é dividido em episódios, e a versão WiiWare reúne os três primeiros capítulos por 800 Wii Points. Na ocasião do lançamento, o quarto capítulo estava disponível para download por 300 Wii Points, e os próximos sete - incluindo o episódio que encerra a série, com o dobro de duração e custando 800 Wii Points - serão lançados mensalmente até setembro. Em termos de narrativa, fica clara a evolução desde o "FFIV" original: o jogo usa flashbacks e eventos simultâneos para contar a história, e os episódios extras seguem este formato, remetendo a um seriado de televisão. Em nosso teste, o game "principal" - a trinca de episódios iniciais, não incluindo o capítulo 4, "Rydia's Story" - foi terminado em cerca de 4 horas mas quem conhece estas séries sabe que isto é só a marcação do save... dado que alguns inimigos são bem desafiadores, o jogo oferece mais do que isso. Ao final, é possível gravar seu save para uso nos episódios seguintes, mantendo seus itens e demais informações a serem importadas.
O visual do game capitaliza em cima desta onda retrô de certos jogos da atualidade, como "Mega Man 9" e "Bit.Trip: Beat" - tudo bem, nada de tão radical quanto estes dois casos do exemplo. Seguindo o estilo visual do Super Nintendo, a maior diferença que se nota é o retrabalho de sprites dos personagens principais - como citamos acima, o "FFIV" original tinha um visual modesto que foi superado por "FFVI" tanto em termos de cenário quanto de personagens e suas ilustrações no menu. De certa forma, é mais ou menos como se "The After Years" fosse o herdeiro direto de "FFVI" em termos de audiovisual: o charme retrô se mantém, e os fãs das antigas se sentirão em casa. Quanto à trilha sonora, temas clássicos da série foram rearranjados, mas outras músicas inéditas - como o tema da misteriosa garota que quer os cristais elementais - também estão incluídas e fazem bonito.
Em termos de jogabilidade, por pouco "The After Years" não se enquadra na máxima "não se mexe em time que está ganhando". A bem da verdade, as reservas do game têm mais a ver com o visual retrô - afinal de contas, nem todo mundo tem a sensibilidade nostálgica ou desprendimento tecnológico o suficiente para jogar um bom jogo com visual das gerações passadas - e com o formato episódico. Afinal de contas, a série "Final Fantasy" é notória por sua longa duração, possibilidade de exploração e tudo mais; já "The After Years" é uma experiência mais enxuta e direta, mesmo que ainda mantenha o potencial de ficar evoluindo personagem (o que também é ajudado pela tentativa de descobrir novos Bands para os personagens da vez). Por fim, outra coisa com a qual demoramos a nos acostumar foi com as divisões entre capítulos: a cada divisão dos três inclusos no original, batia aquele susto - "ué, acabou? Ah, não, continua...".
"Final Fantasy IV: The After Years" é interessante por uma série de razões. Além de trazer boas novidades na jogabilidade em comparação ao "FFIV" original - como o sistema de ataques em conjunto realizados por personagens de ligações fortes e o modificador estratégico que se baseia nas fases da lua - o jogo dá continuidade à trama do clássico do Super Nintendo. Estrelada por uma nova geração de heróis - não que seus pais, os protagonistas do anterior, fiquem de fora - o game é repleto de referências diretas ao seu antecessor, seja dos principais elementos da trama aos pequenos detalhes, o que o torna uma grande pedida para os fãs mais ferrenhos. No lugar de um grande jogo completo, ele é dividido em episódios como um seriado de TV - e usa dos mesmos artifícios para prender a atenção do jogador e torná-lo interessado nos próximos capítulos. Talvez isto seja um choque para os que acompanharam a evolução da série e suas intermináveis aventuras com dezenas de horas de jogo, e pode causar a impressão errada em primeira instância; há outro elemento que pode fazer parte dos jogadores não se interessar muito, e é sua apresentação retrô que remete à era 16 bits. Mas no fim das contas, é um jogo digno da série que vale ser conferido.









