Muita gente não entendeu quando a Nintendo lançou seu novo hardware, o Wii, no mercado. A idéia de usar um controle sensível a movimentos, utilizando uma tecnologia totalmente nova nos consoles, era sem dúvida incrível. Porém as especificações técnicas do console fizeram muita gente coçar a cabeça. Como um hardware visivelmente inferior – no aspecto gráfico – a seus concorrentes poderia ter sucesso no mercado? A resposta veio logo em seguida, com o foco no público casual, desenvolvimento de jogos mais simples e, consequentemente, o primeiro lugar nas vendas mundiais de consoles.
Ainda assim, muita gente sente falta dos "gráficos de última geração" tão alardeados nos consoles rivais. Pensando nisso, algumas empresas decidiram investir não só em jogabilidade, mas também em gráficos no Wii, tendo como meta explorar ao máximo as capacidades do pequeno notável. Afinal, depois de Super Mario Galaxy todos puderam ver que o sistema era sim capaz de apresentar mais do que se imaginava. E foi assim que a High Voltage concebeu o recém-lançado The Conduit, título de ação em primeira pessoa para o sistema da Nintendo.
O grande foco do game é realmente sua parte gráfica. Sem dúvidas The Conduit é um título bonito e que traz na tela alguns detalhes interessantes para um gênero, sempre é claro levando em conta as limitações do Nintendo Wii. Mas infelizmente, como poderão conferir em nossa análise, toda essa preocupação com a parte gráfica acabou fazendo que outros pontos do game sofressem de algum tipo de deficiência. Neste caso, a parte mais afetada sem dúvida foi a trama. Podemos dizer com propriedade que The Conduit é um título extremamente genérico em termos de ação em primeira pessoa, um gênero que por si só já se encontra bastante saturado - porém não no Wii.
O game conta a história de Michael Ford, um agente secreto que ingressa uma estranha organização chamada Trust. A trama gira em torno da invasão de uma espécie alienígena chamada Drudge. Ao longo do game, várias histórias envolvendo planos de assassinatos ao presidente e conspirações contra a humanidade começam a emergir, numa tentativa de adicionar certa complexidade à trama, de uma maneira geral. O resultado infelizmente não é dos mais satisfatórios. Os acontecimentos são narrados de forma bastante pobre, jogados no colo do jogador que, surpreso, fica sem saber exatamente o que está acontecendo no meio de tantos tiros.
A falta de "uma desculpa melhor para a história" terminou por deixar tudo com uma cara genérica demais, até mesmo para o mais pastelão dos Sci-Fi Trash. Outra coisa que deixa a trama ainda mais pobre é o simples fato de não termos cutscenes decentes que ajudem a explicar melhor o que está acontecendo. No lugar disso temos diálogos intermináveis, mostrados em uma "tela de chat futurista". E para piorar, a execução destes tais diálogos nem é tão boa assim...
Se por um lado temos uma trama extremamente genérica, que mal serve como desculpa para a ação desenfreada, por outro temos uma jogabilidade que felizmente ajuda bastante em sua execução. Não seria errado admitir que The Conduit tem hoje o melhor sistema de configuração de controles presente em um game do estilo no Nintendo Wii, o que resulta em um dos melhores controles de FPS já vistos. Não só é possível mapear os botões de acordo com o seu gosto, como também existem opções de controle da "deadzone", área que define até onde o cursor precisa ser levado para que a tela comece a rotacionar. Por último, temos opções de sensibilidade e alguns outros detalhes como automaticamente centralizar a tela e permitir que o jogador assuma uma posição de descanso com o Wiimote apontando fora da tela – opção esta que infelizmente não funciona muito bem.
O fato é que todas estas possibilidades permitiram que o game pudesse se adaptar melhor ao estilo de cada um. É claro, é preciso lembrar que estamos falando de um game de ação em primeira pessoa controlado pelos sensores de movimento do Wiimote. Apesar de não ser 100% preciso na detecção de movimentos, o periférico reconhece bem pequenas tremuras e coisas do tipo. Isso quer dizer que a precisão da mira depende única e exclusivamente da capacidade de concentração do jogador na hora de manter o cursor parado na tela. Este detalhe faz com que se tenha uma paciência um pouco maior na hora de se acostumar com os controles, fato que não acontece de maneira instantânea.
Ainda assim, só o fato de podermos definir os limites da "deadzone" já é de grande valia. O recurso mostra o quão importante é que o jogador tenha controle sobre este tipo de parâmetro, já que, infelizmente, nem todos os padrões definidos como ideais pelos produtores podem ser considerados 100% corretos pelos jogadores. Assim sendo, fica muito mais fácil se adaptar ao esquema de tiro do game, pois as suas limitações podem ser moldadas de forma que o processo seja menos doloroso e mais agradável. Desde já é bom colocar uma coisa em mente. The Conduit apresenta inúmeras opções de mapeamento dos botões e é essencial que o jogador explore esta opção, assim como todas as outras, na hora de montar sua configuração ideal. Desta forma podemos deixar de lado aquela fase de reclamações sobre os botões, já que as opções de mudança estão lá, dependendo unicamente de nosso gosto pessoal.
Ainda assim, com ou sem bons controles, o título sofre de alguns males que tornam a experiência menos interessante do que poderia ter sido no final. Em primeiro lugar, as fases são todas extremamente lineares, tanto em objetivos quanto em caminhos a serem percorridos. Você simplesmente começa no ponto A e precisa chegar até o ponto B, sem maiores complicações. Os caminhos não são nada variados e não é raro esbarrar com um mesmo tipo de corredor, tanto no formato como disposição dos objetos, mais de uma vez na mesma missão. A maior parte dos cenários se passa em ambientes fechados e poucos são aqueles em que temos a liberdade de andar por ambientes abertos. Os cenários abertos, mesmo assim, apresentam algumas limitações que impedem o jogador de explorar toda a sua extensão. Pelo menos não esbarramos com paredes invisíveis, isso sim seria o fim da picada.
A inteligência artificial do game vai de 8 a 80. No "Easy" os inimigos são burros como portas e no "Hard" parecem enxergar através das paredes, atirando – e acertando – ao menor sinal de sua presença - o jeito é encarar o "Medium". Ainda assim a dificuldade média varia muito, e existem momentos em que os adversários se mostram resistentes demais ou simplesmente muito burros.
O fato é que a união entre inteligência artificial - que tem como parâmetro principal "andar, se esconder, atacar, repita até morrer" - e a falta de variedade dos cenários não resultou em algo tão bacana quanto deveria. Apesar de estarmos falando de um jogo de ação em primeira pessoa, com liberdade para nos movimentarmos e tudo o mais, a sequência de acontecimentos de The Conduit não é muito diferente da de um House of the Dead da vida. Imagine assim: você anda, encontra adversários, atira, mata todos e prossegue. Na próxima esquina a mesma coisa acontece e isso vai se repetindo até o fim do estágio. O principio entre ambos é bastante similar, mesmo que contando com uma execução diferente.
Apesar disso, estaríamos mentindo ao dizer que o título é totalmente desprovido de exploração. Para suprir um pouco a linearidade do game, os produtores introduziram dois mecanismos básicos para deixar as coisas mais interessantes. Durante o game, o personagem principal consegue uma espécie de esfera que age como um "olho que tudo vê". Trata-se de um dispositivo especial capaz de decifrar intrincados códigos, hackear complexos sistemas e inclusive detectar objetos e inscrições invisíveis ao olho humano. Na verdade trata-se de uma desculpa simpática para adicionar exploração ao game. O fato é que quanto esta exploração se faz necessária, dificilmente precisamos vasculhar mais de uma sala do estágio em busca das respostas necessárias para progredir no game.
Um destes mecanismos está relacionado a portas que contam com uma tranca especial. O jogador precisa vasculhar o local em que está a porta, ativando com o dispositivo algumas espécies de "switches" que servem como chaves para que a tal tranca seja retirada. O problema é que nem mesmo a emoção de se procurar estas trancas é levada a sério, já que ao chegar perto de alguma delas, uma espécie de alarme começa a apitar. Ok, esta foi uma saída para não deixar o título impossível ou maçante, mas não chega a ser a solução ideal. O dispositivo também pode ser utilizado na busca por passagens secretas e também inimigos invisíveis, mas todos estes emitem alarmes quando próximos do jogador, acabando com a graça da coisa.
A campanha principal possui uma durabilidade bastante considerável para um game do estilo, fato que deixa o jogador entretido por um bom tempo, mesmo com suas falhas. Ao longo das fases é possível recolher alguns discos escondidos que apesar de não terem influência na história principal, ajudam a destrancar algumas "conquistas" e outras novidades no menu de Extras, presente na tela principal do jogo. Mas se a campanha offline não é o suficiente para você, prepare-se para encarar algumas partidas online contra seus amigos e até contra desconhecidos.
Pelo menos neste ponto a High Voltage prometeu e cumpriu. The Conduit possui um suporte online bem interessante com alguns modos bacana de combate entre jogadores. Com suporte para até 12 jogadores, o componente online possui as principais modalidades de jogo disponíveis em outros games como "deathmatch", "team deathmatch" e "capture the flag", cada um com nomes específicos para o game. De fato, jogar online em The Conduit é bastante divertido, principalmente se você contar com acessórios como o Wii Speak, que permite que você fale com seus amigos durante as partidas. O grande problema, no entanto, é a maneira com que o jogo usa a rede online da Nintendo - quem jogou "Super Smash Bros. Brawl" sabe do que estamos falando. Além de ser difícil entrar em uma partida, na maior parte das vezes experimentamos um lag bastante considerável, fato que atrapalha qualquer multiplayer, principalmente em um game de ação em primeira pessoa. Fica a esperança de que a coisa mude de figura, fazendo com que as partidas funcionem um pouco melhor.
Mas e quanto aos gráficos? Certamente é um dos títulos mais bonitos tecnicamente no console da Nintendo. As texturas estão em uma resolução bacana, além da aplicação de algumas técnicas que simulam relevo de forma bastante interessante. Mapas de luz especular fazem com que algumas superfícies pareçam molhadas ou viscosas, algo bastante compatível com os grandes insetos que atuam como bosses presentes no game. O mesmo vale para as armas.
Mas tudo o que dissemos até agora está relacionado à parte técnica do game. Do ponto de vista artístico, The Conduit peca em vários aspectos, começando pelos modelos adversários. Tanto os soldados quanto os aliens são bastante genéricos, dando a impressão de que já vimos àquelas criaturas em algum outro lugar. Os cenários também são bem pobres, mostrando somente o básico do básico. Não existe uma quantidade interessante de objetos que ajude a dar vida às localidades e quando existem, são simples até demais, tanto tecnicamente quanto artisticamente. A falta de cutscenes citada antes também pode ser comentada aqui, já que tudo isso faz parte da apresentação do título, que não é das mais caprichadas. Saindo um pouco do game em si, vale citar as horríveis artworks presentes no manual do jogo, fato que dá uma estranha impressão de amadorismo no trabalho feito pela High Voltage.
O som é interessante, cumprindo bem o seu papel. Os efeitos sonoros estão em uma média de qualidade bacana, tal como as músicas que costumam tocar em horas oportunas. As dublagens são bem legais, tirando é claro o fato dos diálogos serem ruins toda a vida, mas isso já é outra história. Um detalhe interessante é que com o uso do Wii Speak, muitas vezes a música fica com um volume mais baixo do que o normal, facilitando um pouco a compreensão das falas feitas pelos jogadores. Este processo é feito de forma automática e dinamiza as partidas, principalmente entre times, já que a informação é bastante importante em games deste tipo.
The Conduit certamente será lembrado por alguns de seus feitos. O título mostrou ao mundo como se oferece um bom suporte aos controles do Wii, trazendo formas criativas de se ajustar alguns parâmetros essenciais para uma boa jogabilidade. A parte técnica visual também mostra que os produtores podem sim extrair algo mais do hardware do Wii, apresentando produtos cada vez mais interessantes em termos gráficos, indo ao encontro dos jogadores hardcore. Apesar destas façanhas, o game peca em aspectos básicos como história boba e sem grandes atrativos, além de um andamento travado e extremamente linear da trama principal. Fica a esperança de uma sequência seja lançada, aproveitando as inovações deste primeiro e sanando os supracitados problemas.










