Certa vez, a Climax Entertainment, co-produtora do primeiro Shining Force, resolveu lançar Landstalker, um RPG de ação altamente inspirado pela série Zelda. Entretanto, as similares paravam no fato do protagonista ser um elfo com uma espada enfrentando monstros em calabouços. Landstalker colocava o jogador no comando de Nigel, um caçador de recompensas que sai pelo mundo atrás de um lendário tesouro. Nigel tinha a companhia da fada Friday (sim, literalmente Sexta-Feira) e a aventura apresentava batalhas em tempo real contra os oponentes, além de colocar o personagem para coletar tesouros e outros itens. A principal característica da jogabilidade estava no fato do desenrolar em visão isométrica, inclusive nas ''cutscenes''. Nos anos seguintes, a Climax lançou algumas continuações e ''sucessores espirituais'' da aventura, para diversas plataformas, entre elas Lady Stalker (SNES), Dark Savior (Saturn), e Time Stalkers (Dreamcast). Landstalker continua sendo a mais famosa, mas boa parte dos outros títulos mantém a característica do RPG de ação com visão isométrica.
Desta vez a Climax ataca com um jogo que não tem ligação com o universo Landstalker, a não ser pela jogabilidade isométrica de RPG de ação. Lançado no Japão em julho do ano passado, Steal Princess chegou aos ocidente inexplicavelmente ''apenas'' cerca de 11 meses depois. O jogo, na verdade, não pode ser considerado puramente um RPG de ação, já que carrega muitos elementos de queba-cabeça. A ideia principal é de avançar o cenário com as habilidades e armas disponíveis para sua personagem, afim de encontrar uma chave que destranca a porta para o próximo estágio. O desafio, geralmente, envolve também o combate básico com algumas criaturas, mas nada tão elaborado como em um verdadeiro RPG de ação.
A impressão inicial passada por Steal Princess é a de um jogo divertido. Logo de cara a abertura, totalmente no estilo das animações japonesas, apresenta o jogo com um traço bonito para seu character design. A música, em japonês, combina com o ritmo imposto pela animação e deixa tudo pronto para que a jogatina comece. A história inicia mostrando nossa ''heroína'', Anise. Ela é uma ladra das mais fofas, com um vestidinho típico de animês e um estranho tapa-olho. O game começa com Anise invadindo o castelo de um lorde das trevas, provavelmente para abocanhar um precioso tesouro. Infelizmente, nem tudo dá certo para a grande ladra e uma armadilha a deixa inconsciente. Antes disso, porém, Anise vê uma pessoa presa por dois monstros. Fora do castelo, após ser levada por uma correnteza do calabouço, Anise é encontrada pela fada Kukri, que a leva para o castelo de Albyon. Lá, Kukri declara que Anise é a nova lendária heroína esperada por profecias. O Rei Sigmundo fica feliz com a novidade e logo designa a nova heroína para acompanhar Kukri ao castelo do lorde das trevas e resgatar o príncipe que foi capturado. Para Anise, ninguém conhece sua verdadeira identidade de ladra, entretanto, há de se dizer que o Rei tem uma pequena desconfiança.
O enredo é básico, principalmente por conta dos elementos de RPG medieval. Entretanto, os diálogos são até divertidos, engraçadinhos. Durante os diálogos, Rei Sigmundo joga algumas indiretas para Anise, dando a entender que ele sabe que ela é uma ladra, e não, isso não é um spoiler, pois é um dos motes do jogo, falaremos mais sobre isso à frente.
A jogabilidade de Steam Princess baseia-se na mistura de puzzle com RPG de ação. A primeira impressão que tivemos do jogo foi realmente remeter à Landstalker, por conta da movimentação e das habilidades da personagem. O jogo não tem movimentação livre por cenários grandiosos e se resume a andar por pequenos mapas afim de avançar por áreas. Anise parte com Kukri para sua missão atravessando terrenos repletos de monstros e outras ameaças. Cada área possui 25 mapas para que sua personagem encontre a saída. Para avançar, basicamente, é necessário cumprir objetivos pré-determinados. A chave da porta de saída surge quando o jogador alcança a meta, que pode ser ''eliminar todos os monstros'' ou simplesmente ''achar a saída''. Para alcançar o objetivo é necessário raciocinar um pouco - daí o elemento puzzle - elaborar um plano antes de iniciar seus atos, pois é bem capaz de que você reinicie a fase caso faça alguma besteira, levando o jogo a ser baseado no fator de ''tentativa e erro''. Cada mapa possui um ranking de medalhas, variando entre ouro, prata e bronze. Você é agraciado com uma delas de acordo com o tempo em que vence a fase. O desafio é alto, mas geralmente não vale a pena conseguir as medalhas de ouro e prata, já que as fases cansam rápido e são, em geral, repetitivas, apresentando o mesmo layout boa parte das vezes e apenas com o desafio diferente. Com toda a certeza vai te divertir, mas por poucos minutos.
A progressão isométrica fez com que os controles não funcionassem muito bem, ao menos não pelo direcional do DS. Entretanto, há um dilema. Por um lado, a movimentação da personagem não funciona no direcional, é verdade, mas o manuseio de ítens e armas é preciso com o apertar dos botões. Por outro lado, é possível movimentar Anise pela tela de toque do portátil, apontando a direção com a caneta stylus. É possível também fazer com que ela manuseie objetos e faça ataques com a stylus, mas dessa forma é que não funciona de forma que deveria, falhando muitas vezes e causando situações confusas. Há de se nota o esforço do produção em tentar fazer as coisas simples e intuitivas, mas o esquema de controle simplesmente não funcionou. Sabemos que movimentar um personagem em um jogo com visão isométrica já não é fácil com um controle normal, se a programação não ajuda é que fica bem complicado. A precisão também falha nos combates. Tudo bem que este não é o foco do jogo, mas por que não fazer as coisas com uma certa qualidade? Os embates são insonsos e as vezes podem te prejudicar sem dar qualquer chance de se defender. Geralmente se um inimigo chegar perto de Anise ela já recebe algum dano e interrompe seu ataque, e, não sendo possível atacar e andar ao mesmo tempo, é imprescindível que você seja preciso na sua investida.
Os combates também têm algumas variações. A maioria dos inimigos é regido por uma cor elemental. Há inimigos azuis, vermelhos, cinzas, entre outros, e cada um só é atingido por uma arma da cor correspondente. Isso colabora para aumentar o fator de puzzle do jogo, pois Anise só pode só pode carregar um objeto além de sua arma fixa, um chicote. Fora ele, a personagem pode usar espadas, bombas, maças e outros. Ao carregar um ítem, como a chave, Anise também larga a arma que está equipada no momento. Além disso, se você pegar a espada cinza, para matar inimigos cinza, ela larga a vermelha, por exemplo. Tais fatores vão exigir que você pense ainda mais antes de derrotar alguns oponentes, pois eles também são peças chave para avançar. Alguns podem até servir de plataforma para saltos mais alto ou para passar sobre espinhos.
Fora dos mapas e dos combates, Steal Princess apresenta alguns extras no menu principal. Treasure Room é uma das opções mais divertidas. Aqui Anise tem a opção de realizar duas ações, uma delas é o ''débito''. Lembra lá de cima em que falamos sobre a desconfiaça e as indiretas do Rei para com sua personagem? Pois é, aqui ela pode depositar todas as gemas preciosas que encontrar pelos mapas, afim de quitar seu débito para com o reino por conta dos roubos realizados. Durante os diálogos, o Rei ''pede'' para que Anise fale para a ladra fazer isso, caso a encontre. A justificativa é criativa e divertida, o problema é que não há um objetivo certo. Seu débito começa com 8 mil em ouro, que vai reduzindo a medida que as pedras preciosas são depositadas. Para a história isso surte pouco efeito, já que Anise é apenas congratulada. Para o jogo em si é possível apenas desbloquear mapas extras a partir de uma certa quantidade depositada, mas são apenas dois.
Por falar em mapas, Steal Princess traz um editor de mapas até bem completo. É possível selecionar um layout pré-pronto e editar a partir dali, inserindo inimigos, desafios, puzzles, itens, tudo o que estiver disponível e que você já tenha encontrado. A outra opção do Treasure Room serve para isto, onde em Map Parts é possível conferir quais utensílios você já tem para utilizar em sua criação. O jogo oferece também o compartilhamento de cenários através da Nintendo Wi-Fi Conection, ou localmente por conexão wireless entre dois Nintendo DS. Infelizmente o compartilhamento pela internet se restringe a possíveis amigos que você adicionar na sua lista interna, não há um diretório geral onde as pessoas poderiam salvar suas criações para qualquer um baixar e jogar, o que limita um pouco a partilha.
Como falamos, o character design é bonitinho, bem feito, mas o mesmo não se repete aos gráficos apresentados durante a ação nas fases. O cenário é em 3D, similar a jogos como Final Fantasy Tactics, mas os personagens, incluindo Anise e os inimigos, são em um 2D rústico, com sprites de baixa resolução, muito feios de se ver. O desleixo na parte gráfica é claro e deixa a entender que o jogo careceu de uma polida neste quesito. Todos os personagens têm um ''quê'' do famigerado fanservice, como roupas esdrúxulas e reações dignas do mais exagerado animê. O som também não chama a atenção, com exceção do tema de abertura. Todas as vozes da personagem – na verdade pequenas expressões de ataque ou ação, já que não há diálogos falados - foram deixadas em japonês, o que é até bom, mas passa a impressão de ''preguiça'' da produção em localizar totalmente o game.
Cuidado, a Steal Princess pode roubar sua paciência! A intenção da Climax Entertainment com o game foi até interessante e, com as devidas proporções, original. O problema está no desenvolvimento, com um game sem tanto carisma quanto sua ideia, além de pecar pela falta de um polimento maior. Quem tiver uma generosa dose de boa vontade poderá usufruir um pouco mais sem se preocupar com alguns desleixos, como cenários repetitivos, puzzles sem sentido e música irritante. Some isso ao fato do exagero no fanservice, direcionado a um público extremamente restrito, para justificar uma adaptação barata para o ocidente. Entretanto, para tudo existe um lado bom. Steal Princess tem uma história divertida e curiosa, além da possibilidade de criar seus próprios mapas. O jogo possui também um climão de Landstalker, um clássico da Climax, principalmente pela sua jogabilidade em visão isométrica, mas não é o suficiente para render uma grande nota.












