O mundo dos videogames certamente possui um público bastante crítico. Basta sair algum jogo um pouquinho abaixo do esperado para que multidões caiam em cima do título em questão, reclamando disto ou aquilo. Mas é claro, alguns jogos são focados em um público bastante seleto, que costuma dar maior atenção a outros detalhes que não sejam gráficos e sangue em baldes. Não chega a ser uma regra, mas geralmente os jogos que possuem total ênfase na simulação não costumam vir acompanhados de gráficos de ponta ou jogabilidade simples e direta, algo comum e até mesmo dado como necessário no atual mercado de jogos.
Podemos citar alguns exemplos clássicos como é o caso da série GTR da SimBin. Depois de algumas versões até que o jogo ficou bem bonito, mas o seu foco sempre foi simular com maestria as diversas categorias de automobilismo presentes no game, com direito a até mesmo ferramentas reais de telemetria, usadas por inúmeras equipes em eventos de automobilismo reais. É um tipo de jogo que possui um aproach, ou seja, uma abordagem, diferente do que estamos acostumados a ter contato em termos de jogos eletrônicos, mas que agrada bastante aos fãs mais ardorosos do gênero.
O alvo desta análise é mais um exemplo de game onde o grande foco é a simulação, de forma que a representação dos eventos mostrados na tela seja a mais realista possível. ArmA II é um título de guerra desenvolvido pela Bohemia Studios onde o objetivo é colocar o jogador em conflitos armados extremamente realistas, levando este conceito ao seu limite. De fato, esta característica é levada tão a série que fica difícil dizer que ArmA II possui uma jogabilidade ''simples'', muito pelo contrário. A interface do jogo é péssima, tal como a disposição dos controles e a forma com que o jogador interage com os demais personagens e acontecimentos.
Mas o que um jogo com tais características pode oferecer de tão bom, já que um dos pontos mais importantes de um game é justamente a sua jogabilidade? ArmA II é uma verdadeira montanha russa. Existem momentos em que o jogador fica realmente maravilhado com que presencia, dado o realismo e o rumo que certos acontecimentos tomam dentro do game. Por outro lado, não será raro ver momentos onde os inúmeros bugs do título vão tirar muito da sua paciência, além de proporcionar acontecimentos bizarros e que definitivamente não deveriam acontecer.
O título se passa na fictícia cidade russa de Chernarus, palco de inúmeros conflitos civis e embates entre milícias armadas e o exército local. Na verdade a campanha do game é bastante extensa, dividida em inúmeros pequenos capítulos, cada um com suas próprias missões e objetivos específicos. Ainda assim, existem várias outras opções e maneiras de se apreciar o game. As opções de jogo mais básicas são Campaign, que logicamente traz a campanha principal do jogo, Scenarios, onde o jogador tem a chance de carregar missões especiais extras, além das feitas pela comunidade de modders do jogo e o modo Boot Camp, um tutorial bastante completo que coloca o jogador em inúmeras situações presentes no título, indo do mais básico domínio dos controles à administração de uma tropa inteira e a construção de uma base de ocupação.
Como falar da história do game é um pouco irrelevante, já que este não é o grande foco do título, passamos então para a sua jogabilidade. Conforme comentamos anteriormente, estamos lidando com um simulador de guerra, que tem com objetivo passar para o jogador toda a tensão presente em um campo de batalha real, e acreditem, eles conseguem esta proeza. A sensação de que alguma coisa muito ruim pode acontecer a cada segundo é sempre presente. Estamos falando de um título onde o seu adversário cai com apenas um tiro certeiro, e o mesmo pode acontecer com você. Não existem medidores de energia ou qualquer outro tipo de tentativa de limitar a realidade de forma que isso possa favorecer de alguma maneira a jogabilidade. Falando a verdade, ArmA II não pode ser considerado de maneira alguma um título amigável. O desenvolvimento das missões exige que o jogador tenha total conhecimento daquilo que está acontecendo à sua volta e isso inclui a leitura minuciosa do briefing das missões, isto é, antes de partir para o ataque é interessante que você primeiro saiba com o que está lidando, além de estudar o terreno e ter uma noção mínima da melhor trajetória executada em campo, de forma que o objetivo seja concluído com o menor número de fatalidades possível.
Conselho que vos deixo: assim como o poder do Hulk é saltare, não recomendamos este game para aqueles que esperam encontrar um Call of Duty ou um Brothers in Arms. A sensação certamente vai ser de decepção já que este título é muito diferente daquilo que estamos acostumados a lidar. Não é raro, por exemplo, ficar totalmente perdido durante uma missão, principalmente naquelas presentes no modo Scenarios. A grande maioria dá ao jogador as direções a serem tomadas para a conclusão dos objetivos, mas algumas vezes nem isso é oferecido. Não sabemos se isso é um bug ou algo proposital com o objetivo de dar ainda mais realismo ao game, mas algumas vezes estas informações sobre qual direção tomar não são nada precisas e acabam errando o objetivo por centenas de metros. Pode ser um bug? Óbvio que sim. Mas pensem bem: será que durante uma guerra de verdade os soldados possuem informações realmente precisas? Não é algo que ajude na jogabilidade, muito pelo contrário. Mas ainda assim é algo mais próximo do que realmente acontece durante as missões executadas pelo exército, afinal, nós já contamos com a presença de uma setinha que aponta a direção pra o qual devemos caminhar. Quer mais do que isso?
Os combates em ArmA II são bastante intensos. Fique por mais de dois segundos de pé no meio do fogo cruzado e certamente reiniciará a missão muitas e muitas vezes. Este é outro ponto que fatalmente irá desagradar uma grande parte dos jogadores, até mesmo alguns que se consideram ''hardcore''. É praticamente impossível seguir no jogo sem ficar atento aos comentários dos demais membros da sua equipe quanto à localização dos adversários. O problema é que eles relatam qualquer coisa que entram em seu campo de visão, algo como ''Veículo desconhecido distante à nossa frente'' ou algo mais específico domo ''Alvo à direita distância média''. Nem sempre é simples interpretar estas informações já que muitas das vezes elas são baseadas na última vez que um de seus parceiros viu o adversário.
Mas a coisa que certamente mais confundirá o jogador são os marcadores que indicam a posição dos adversários. Também não sabemos se é um bug ou algo proposital, mas eles somente mostram onde o alvo ''deveria'' estar e não onde ele efetivamente está posicionado. Isso significa que muitas das vezes você corre na direção do adversário, se esgueira de forma que possa pegá-lo de surpresa e quando chega ao local marcado, não tem ninguém ali. O pior é quando este alvo começa a se mover, dando a impressão de que ele de fato está acompanhando o adversário. Na verdade algumas vezes isso acontece sim, mas muitas delas a informação é totalmente falsa, trabalhando com suposições de onde o seu adversário pode, talvez, estar. E em um jogo onde você morre com apenas um disparo, trabalhar com suposições não é a melhor coisa do mundo.
Talvez esta falta de informações em relação ao que acontece ao seu redor seja o grande empecilho para um melhor aproveitamento de ArmA II. O realismo às vezes é levado a sério demais, tornando a jogatina um festival de tentativa e erro. O pior é que a inteligência artificial dos inimigos funciona bem e cada vez que você reinicia uma missão eles executam manobras e movimentos diferentes, deixando tudo ainda mais complicado e incerto. É realista? Sem dúvida! Mas existe um limite quando falamos do aproveitamento do título como um jogo, e não como algo real.
Mas esta não é a única coisa desagradável em ArmA II. Os menus do jogo são realmente péssimos e a maneira com que você acessa cada um deles é pior ainda. Para começar, toda a interação do game é feita com o mouse Wheel, a ''rodinha'' do mouse. Se você quer trocar de arma, você deve rodar o botão para então escolher alguma arma que esteja equipada. O mesmo ocorre na hora de interagir com as pessoas do seu grupo, dar ordens ao seu esquadrão ou qualquer outra coisa que exija alguma decisão do jogador. As opções dos menus podem ser feitas através do próprio mouse Wheel ou pelo teclado numérico, o que é melhor neste caso. O problema é que este esquema não é nada prático, principalmente se levarmos em conta o fato de estarmos jogando um game onde a rapidez e precisão de suas ações são essenciais para o melhor aproveitamento de seus recursos.
Os controles dos veículos também não é dos mais práticos. Levantar com um jato e manobrá-lo é difícil, mas não impossível. Mas tente fazer uma aterrissagem com ele e verá do que estamos falando. Até mesmo o helicóptero exige muito mais prática do que se espera, tanto em suas manobras quanto na própria aterrissagem. Isso porque sequer falamos sobre o uso de armamentos com estes veículos... O jogo como um todo é lotado de bugs estranhos, e eles não deixam nem a fase de tutorial em paz. Por exemplo, em uma parte do tutorial, o jogador aprende a usar artilharia anti-tanque, com lança-mísseis e é ordenado a destruir alguns tanques de madeira. Seguimos a risca o que nos era pedido e mais que de repente fomos atacados, do nada, por membro de nossa própria equipe! Exatamente, nosso personagem foi morto em combate dentro do próprio quartel, durante um treinamento, e o pior, por membros do mesmo exército. Procuramos inúmeras vezes por uma explicação plausível, mas não chegamos a nenhuma conclusão definitiva.
Mesmo com estes problemas, é possível ter um ponto de vista positivo do game. Os amantes de guerra dificilmente terão acesso a um título tão completo em termos de situações de combate urbano e em outros terrenos, além de terem a chance de ficarem frente a frente com uma inteligência artificial bastante eficiente. A dificuldade também é bastante alta, mesmo no nível médio e só fica mais e mais bizarra conforme aumentamos. Outro ponto importante é a possibilidade de expansão que o jogo promove, oferecendo ferramentas de edição e modificação bastante completas e que certamente farão a cabeça daqueles que se empolgarem com a proposta e tiverem mais intimidade com o tema proposto. O mesmo vale para aqueles que preferem jogos com bastante conteúdo. Além do material extra que fatalmente será produzido pela comunidade que gira em torno do título, as campanhas em si são bem extensas e difíceis de se terminar, exigindo estratégia em bom senso na hora de avançar. Por fim, a variedade na jogabilidade chega para fechar os pontos considerados imperdíveis no game. Como comentamos, é um jogo ''Oito ou Oitenta'' do tipo ame ou deixe.
E é claro, a parte gráfica segue a mesma linha. Em alguns momentos o jogo é realmente lindo, com cenários repletos de detalhes e tudo o mais. Mas ainda assim persistem alguns bugs chatinhos que acabam por tornar a experiência menos realista do que poderia ser. Em primeiro lugar, é bom deixar claro que o game é bem pesado. Mesmo em nossa máquina de testes, que conta com um Quad Core, 4GB de RAM e uma NVidia 9800GTX+, o jogo sofreu muito para rodar com todos os parâmetros em Very High, mesmo depois de desligarmos recursos como Anti-Aliasing e filtro anisotrópico. Mesmo com as configurações no High ainda tivemos alguma dificuldade de conseguir um frame-rate decente e a coisa só se estabilizou com as configurações no Normal, onde conseguimos uma média de 29FPS, ainda baixo para o que o jogo oferece e a máquina utilizada.
O jogo em si é bem bonito. Não estamos falando de um Crysis, mas até que o visual do jogo chama atenção. Os cenários são vastos e gigantescos. O que você vê no mapa é possível alcançar andando. Porém, mesmo nas configurações de vídeo mais modestas, é possível ver uma quantidade absurda de Pop-ups, tanto de objetos quanto de texturas. A impressão é horrível, principalmente se levarmos em conta o fato de estarmos falando de um simulador. As animações também não são as melhores, principalmente as animações faciais. Os efeitos especiais como explosões e partículas deixam um pouco a desejar em alguns aspectos, principalmente na fumaça. O que chama a atenção mesmo são os cenários, vastos e detalhados, com vegetação por todos os lados, além de belos efeitos climáticos. Os efeitos de pós produção como motion blur e glow também são um show, porém extremamente pesados.
O som do game deixa a desejar em alguns aspectos, mas acaba ganhando força em outros. As músicas não são constantes, mas cumprem bem o seu papel nos momentos certos. As dublagens variam muito de qualidade e podemos dizer que elas são ''naturais'', o que não quer dizer que sejam realmente boas. O ponto forte, no entanto, vai para aquilo que o título se propõe a fazer de verdade: oferecer um típico ambiente de guerra. O som dos tiros e ricochetes chega a ser assustador de tão realistas. Missões à noite deixam isso ainda mais evidente quando, no meio da escuridão e silêncio total, uma rajada de metralhadora ou um tiro de sniper corta o sossego do lugar.
ArmA II é um bom jogo sim, mas para aqueles que curtem muito o estilo. A maior parte dos jogadores vi se sentir extremamente incomodada com os problemas presentes na interface, bugs gráficos e certas coisas que não se sabe se são propositais para dar mais realismo ao game ou são recursos mal implementados. Os controles também são bastante complicados, principalmente o dos veículos. Os gráficos são bons e os cenários realistas, mas o título é extremamente pesado para o que apresenta, além de possuir inúmeros problemas de pop-ups de textura e modelos, independente do nível de configuração gráfica adotada. Ainda assim, é um título que possui uma quantidade bastante alta de conteúdo e certamente irá agradar aos mais fanáticos por guerras.










