O Brasil é um país altamente valorizado no exterior. Não só pelas riquezas naturais da Amazônia, mas também por suas recentes jogadas políticas em termos de relações externas, além do fato do povo brasileiro ser extremamente receptivo a estrangeiros. Rio de Janeiro, São Paulo e os litorais do nordeste e sul, por exemplo, são destinos alguns dos destinos turísticos mais procurados por pessoas de fora. Para colocarmos em números, só em 2008 o Brasil foi o principal destino no mercado turístico internacional de toda a América Latina, o que gerou cerca de 5,2 milhões de visitantes por aqui. Não é para menos que o turismo gerou quase 6 bilhões de dólares em renda para o País só em 2008, um valor 17% maior que o arrecadado em 2007. Estes valores não são meros números, e sim uma representação de uma série de novos empregos, movimentação de renda e propaganda local que a exposição do Brasil gera. Há de se admitir que o nosso País está em posição privilegiada, geograficamente falando, e tem muitos atrativos para os visitantes, apesar dos defeitos (que todo país tem, diga-se de passagem).
Como brasileiros, ficamos satisfeitos em ter o País bem visto lá fora, sendo bem falado pelas pessoas que visitam todo o território nacional em busca de diversão, descanso, ou até mesmo uma boa oportunidade de negócios. Entretanto, será que a visão que os chamados ''gringos'' têm de nós é a correta? Quando um estrangeiro vem ao Brasil, por qualquer motivo que seja, como ele vai retratar o país aos seus amigos? Como vai comentar sua viagem? Não é novidade que muitas produções estrangeiras de entretenimento tenham o famoso ''país do futebol e do carnaval'' como tema, principalmente filmes e séries. Para lembrarmos de algus filmes recentes, temos como exemplo o novo ''O Incrível Hulk'', com Edward Norton, que foi rodado na Favela Tavares Bastos (Rio de Janeiro) e a adaptação do livro de José Saramago, ''Ensaio sobre a cegueira'', que teve cenas gravadas nas ruas de São Paulo. Até mesmo videoclipes de artistas musicais famosos foram filmados aqui, tendo como exemplos mais famosos o rapper Snoop Dogg e o rei do pop, Michael Jackson. Para completar o pacote, vale citar que animês, legítimas produções japonesas, também adotaram o país verde e amarelo como pano de fundo. Temos como exemplo os desenhos de futebol ''Captain Tsubasa'', conhecido por aqui como ''Super Campeões'', e o mais recente ''Michiko to Hatchin''.
Como qualquer campo de entretenimento, com os games não foi diferente. O Brasil, país exótico por natureza, desperta muito interesse de várias produtoras de games pelo mundo afora. O que se traduz na decisão de realizar games que se passem em cenários brasileiros, parcialmente, ou quase totalmente. É claro que, bons brasileiros que somos, vamos vangloriar a atitude por ver a nossa terra retratada em uma produção do nível de um caro jogo de videogame como é feito nos dias de hoje.
O Brasil das antigas
Não há um registro oficial do primeiro jogo a retratar o Brasil em sua forma digital, entretanto, acredita-se que foi ''Where in the World Is Carmen Sandiego?'', lançado originalmente para computadores, em 1985. Para quem não conhece, ''Carmen Sandiego'' é uma série de jogos educativos que nasceu como um projeto da publicação americana ''The World Almanac and Book of Facts''. A ideia era de fazer o jogador viajar por locais famosos de todo o mundo em busca da famosa ladra. Passeando pelo globo, o jogador coletava diversas pistas e conversava com pessoas em busca de outras dicas para encontrar seu alvo e solucionar os casos. Cidades famosas como Sydney, Budapeste, Lima, Buenos Aires, Londres, entre outras tão populares quanto as já citadas. Com isso, obviamente, o Brasil não poderia ficar de fora, incluindo no game uma de suas mais populares cidades, o Rio de Janeiro. A participação não é muito extensa e se resume a mostrar um cenário simples inspirado na Cidade Maravilhosa enquanto o investigador passeia pelas suas localidades em busca de pistas.
A série ''Carmen Sandiego'' foi bem popular em seu segmento e ganhou mais de 10 títulos nos anos seguintes, cada um com uma temática histórica ou territorial, mas em grande parte dos jogos o Brasil ainda foi presença garantida. Além de ''Carmen Sandiego'', outra famosa franquia que podemos citar com uma relevante participação brasileira é a série de luta ''Street Fighter''.
Em sua encarnação mais popular – Street Fighter II: The World Warrior – a série da Capcom trouxe para os fãs brasileiros um tipo de ''homenagem''. Blanka, um homem monstro verde, era um dos lutadores disponíveis no título. A surpresinha aqui é que Blanka era brasileiro, e mais: vivia na Amazônia! E, se isso não for suficiente, prepare-se para mais uma: uma parte da Amazônia serviu como cenário para o game, um dos mais populares, aliás, com uma típica paisagem do Rio Amazonas e um povo que aparentava serem índios ao redor, inclusive com uma jibóia gigante pendurada em uma árvore. Felizmente, Blanka foi um personagem querido por muitos jogadores e, como na época a participação do Brasil nos games era coisa bem rara, todo o cenário na Amazônia foi bem aceito e o personagem foi recebido de ''braços abertos'' pelos fãs brasileiros da produtora. Vale como curiosidade: Blanka foi listado como uma das personalidades brasileiras mais conhecidas por estrangeiros, ao lado de nomes como Gisele Bündchen e Pelé.
Ainda no ramo de jogos de luta, ''The King of Fighters'', outra famosa série do gênero, resolveu incluir um cenário brasileiro logo em sua estreia, em ''The King of Fighters '94''. Apesar da inclusão, nenhum personagem era brasileiro, como ocorreu com Blanka, em ''Street Fighter''. Acontede que cada time vinha de uma nacionalidade, entre elas Japão, Estados Unidos e Itália. O Brasil, novamente, não ficou de fora, e esteve representado pela equipe Ikari Team, de Heidern, um militar que estava em missão com seus subordinados Ralf e Clark quando o helicóptero de transporte foi abatido, caindo direto em uma floresta brasileira. O cenário é típico, similar ao de ''Street Fighter'', mas sem os exageros deste. A paisagem em ''KOF'' era mais contida, uma floresta fechada com alguns índios ao fundo, observando as lutas. Não poderia faltar também o helicóptero do Ikari Team caído entre vinhas e cipós.
À exceção de ''Carmen Sandiego'', todos os cenários citados tiveram as selvas brasileiras como principal inspiração. Talvez essa representação seja por conta do alto interesse dos estrangeiros pela Floresta Amazônica, ou talvez somente pelo fato de ser um cenário de grande beleza, não há uma certeza. Porém, felizmente, o cenário brasileiro nos games acabou variando com o tempo, mas não tão cedo. A Capcom repetiu a dose de ''Street Fighter'' na série de luta ''Darkstalkers'', introduzindo o personagem Rikuo. Ele não era brasileiro, mas seu cenário também era uma floresta em terras tupiniquins. A própria Capcom, anos mais tarde, revisitou o Brasil em ''Street Fighter III'', com um cenário no Porto de Santos (do personagem Sean, brasileiro) e outro em uma misteriosa caverna (do personagem Oro, também brazuca).
O Brasil educativo
Além de ''Carmen Sandiego'', outros jogos educativos, ou ''de pensar'', utilizaram terras nacionais como cenário. Entre nacionais e estrangeiros, alguns bons títulos se inspiraram no Brasil para ilustrar alguns de seus capítulos ou pequenas passagens. Tal opção por parte das produtoras é uma jogada acertada, já que muitos jogadores brasileiros optaram por tais jogos por uma fácil assimilação. Isso sem falar que o Brasil é uma bela adição a games do tipo.
O exemplo mais famoso vem da série ''Sim City'', da Maxis, popular simulador de construção de cidades. Quem nunca jogou um pouquinho deste clássico dos PCs? O ''Sim City'' permitia o jogador a construir cidades, vilarejos ou grandes metrópoles em um complexo sistema bolado pela produtora. O jogo ficou muito famoso, pois tinha um avançado grau de estratégia para a época. Porém, para quem não tinha muita criatividade, o game trazia também algumas cidades pré-montadas, entre elas uma versão modificada e simplificada do Rio de Janeiro. Apesar de não ser tão fiel à cidade original, o Rio de Janeiro em Sim City estava até bem representado, com boa parte dos bairros que compõem a orla carioca. Há algumas inconsistências, como a Cinelândia (parte do Centro do Rio) ser imediatamente ao lado da Marina da Glória.
Outros jogos ''de pensar'' que incluem o Brasil são ''Railroad Tycoon'', simulador de construção de ferrovias, e o popular ''Flight Simulator'', da Microsoft, simulador de pilotagem que incluia alguns cenários brasileiros para os aviões cruzarem. Jogos nacionais, que não chegam a ser exatamente educativos, mas que coloquem o jogador para pensar, obviamente também utilizaram-se de cenários brasileiros para desenvolverem suas aventuras. Entre os exemplos podemos citar ''A Lenda da Pedra da Gávea'', ''Amazônia'' e ''Angra 1''. Todos são no estilo ''adventure'' e colocam o jogador em uma verdadeira aventura de ficção nas terras brasileiras. Outro jogo nacional que vale ser citado é o recente ''Capoeira Legends'', um tipo de MMO que mistura jogo de luta e se passa em um Brasil antigo, do século XIX, nos tempos da escravidão. Como o nome denuncia, o jogo é altamente inspirado no estilo de luta africano que foi herdado pelo Brasil. Ainda na área dos MMOs, temos o falecido ''Erinia'', um RPG online que contava com temática folclórica, baseada nas famosas lendas nacionais, como o Saci-Pererê (o melhor), Cuca, Mula-sem-Cabeça, Curupira, entre outros.
Tais jogos são beneficientes em áreas como a educação, pois são títulos utilizados até mesmo em escolas, nos laboratórios de informática, para uma fácil absorção dos alunos. O fato destes se passarem no Brasil contribuem, e muito, para esta aceitação. O cenário, sendo familiar, deixa tudo em casa. É muito mais fácil para a pessoa aprender.
O Brasil da guerra
Um dos gêneros mais populares de games da atualidade não ia ficar de fora dessa matéria. O FPS (First Person Shooter), ou jogos de tiro em primeira pessoa, além de games focados no tema de guerra. Infelizmente, nosso País é conhecido também pelo alto índice de violência, não é a toa que muitos jogos de guerra recentemente vem adotando o Brasil como cenário, mas isso não começou agora, ao menos não por parte dos ''gringos''.
Famoso e polêmico, o jogo ''Counter Strike'', que nasceu de uma modificação de ''Half-Life'', chegou a ser banido do Brasil por conta de seu alto teor de violência e brutalidade, segundo nossas autoridades. Entretanto, ''Counter Strike'' é um game voltado para jogadores com mais de 18 anos, justamente por estes motivos que geraram seu banimento recente, mas a principal motivação para este embargo foi um mapa multiplayer feito por brasileiros, o famoso ''cs_rio''. O mapa colocava os jogadores para se enfrentarem em um conflito dentro de uma típica favela carioca, afim de resgatar representantes da ONU que foram raptados por terroristas, ou ''traficantes''. O mapa não é oficial e não é reconhecido pela Valve, produtora oficial do game. É apenas um tipo de modificação criada por jogadores para ser mais uma opção de cenário dentro do jogo. Mas isso bastou para que a polêmica tenha sido gerada.
Em lançamentos recentes, e outros que ainda nem chegaram a ser lançados, o Brasil também faz sua participação, mas dessa vez de forma oficial e mais realista, por parte das produtoras estrangeiras, entre elas a Infinity Ward, Ubisoft e Rockstar. Um dos mais novos, porém de menor sucesso, foi ''Shadowrun'', para PC e Xbox 360. O jogo de tiro multiplayer baseado no RPG futurista da FASA se passa inteiramente na cidade de Santos, em São Paulo, no ano de 2031, com cenários na periferia da região. Um dos trailers do jogo, inclusive, usou a música de Cartola, ''As Rosas não Falam'', na voz da cantora Beth Carvalho, enquanto outro utilizou o som da banda de percussão corporal Barbatuques. A premissa foi interessante, mas o jogo falhou ao não ser fiel ao RPG original, o que acabou não agradando aos fãs. Vale como curiosidade pelo cenário brasileiro/futurista.
Ainda em São Paulo, ''Max Payne 3'', continuação da famosa série de games de ação, terá como cenário uma favela paulista. Max, antes um policial do departamento de Nova York, vive no Brasil e trabalha para uma empresa de segurança privada. Vale como nota: O primeiro jogo da série foi lançado oficialmente por aqui em sua versão de PC, com uma peculiar e curiosa dublagem em português. ''A neve branca caia como confete no carnaval do diabo'', quem não se lembra deste clássico da canastrice? No bom sentido, é claro.
Da Ubisoft veio ''Tom Clancy's H.A.W.X.'', um simulador de combate entre aviões de guerra ambientando em 2012. O game partia da premissa de que o mundo ficou cada vez mais dependente de companhias militares privadas. Com a concentração de poderio militar nas mãos de corporações, há o temor de uma precipitação de um conflito em escala global. É nesse contexto que entra o jogador. H.A.W.X. Permitia os jogadores a seguirem em duas missões em território brasileiro. Um deles, o principal, é no Rio de Janeiro, em um cenário extremamente fiel e bem produzido. No avião era possível enxergar toda a geografia do Centro do Rio, bem como boa parte da extensão da Orla, passando pela Zona Sul. O jogo englobava até mesmo parte das divisas dos bairros da Tijuca e do Maracanã, onde está localizado o Estádio Jornalista Mário Filho, mundialmente conhecido como Maracanã. O outro cenário do jogo que se passa no Brasil está em parte da divisa do Amazonas com países como Colômbia, Venezuela e Peru. O realismo nas cenas não era em vão, já que a produtora utilizou tecnologia da empresa GeoEye, para o uso do satélite Ikonos, afim de capturar imagens perfeitas de tais localidades, com direito a nível profundidade de edifícios e elevações naturais.
Voltando para os jogos em primeira pessoa, ''Call of Duty: Modern Warfare 2'', uma das grandes promessas para 2009, é uma produção da grande Infinity Ward em parceria com a distribuidora Activision. Para nós, a principal novidade de Modern Warfare 2 é a participação do Rio de Janeiro como um dos principais cenários. Quando divulgadas, as primeiras telas do jogo traziam uma grande fidelidade com típico visuais cariocas, como uma favela aos pés do Cristo Redentor, remetendo ao Morro Santa Marta, no bairro de Botafogo. Recentemente, através de um dos novos trailers, descobrimos que um dos cenários cariocas é a rua Djalma Ulrich, de Copacabana, inclusive com aquelas familiares plaquinhas de ruas encontradas no Rio, em cores azul e branca.
Já no ramo dos Massivo Multiplayers Online, ''World of Warcraft'' conta também com uma singela homenagem ao Brasil e ao Rio de Janeiro, mas não é das mais agradáveis. Booty Bay, uma cidade que fica em um dos cantos de Azeroth, abriga piratas e seres desprezíveis. A cidade é montanhosa e se desenvolve ao longo de um morro. A aparência dela? Barracas, similares a uma grande favela, literalmente. Seria forçado enxergar uma comparação apenas por estes apontamentos, mas em Booty Bay há uma pequena ilha chamada ''Janeiro's Point'', com uma grande estátua do goblin Baron Revilgaz de braços abertos, muito similar ao nosso Cristo Redentor.
O Brasil de muitos estilos
A exemplo dos jogos mais famosos já citados, o Brasil figura também em produções menores ou menos conhecidas, de forma timida ou em sua totalidade. O jogo de corrida ''Burnout Dominator'', de PSP, por exemplo, possui uma pista distribuida por download chamada de Carnaval Point, com todo o litoral do Rio de Janeiro representado, bem como uma parte de Niterói, cidade vizinha à capital do Rio. Outro jogo de corrida, mas que ainda não foi lançado, ''Need for Speed: Nitro'' também terá um cenário no Rio. A lista segue, e uma outra série de jogos em vários estilos também tem suas aventuras desenvolvidas no Brasil, como Driver 2 (em uma curiosa praia carioca repleta de coqueiros e macacos), Twisted Metal (em um distorcido cenário no Amazonas), Samba de Amigo (jogo musical que utilizou o carnaval como tema, bem como desfiles típicos brasileiros) e o desconhecido Beach King Stunt Race, que tem um a pista no Rio de Janeiro.
Como essa exposição brasileira, em inúmeros jogos listados em nosso artigo, pode beneficiar o Brasil em prática? Para isso, tentamos contato com a Riotur (Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro), mas a assessoria de imprensa optou por não responder. Talvez por conta de uma certa ignorância a respeito do assunto ''games'', algo, infelizmente, muito comum em nosso mercado brasileiro, ainda em desenvolvimento. Porém, seria interessante uma maior aproximação com novos nichos do mercado por parte das autoridades brasileiras para uma maior promoção do País. Não é novidade que o turismo virtual vem sendo cada vez mais utilizado para a propaganda de um destino. Com o desenvolvimento e evolução constante da internet isso vem se tornando cada vez mais comum. Seria este um filão que as autoridades brasileiras estão perdendo? Temos como exemplo o site The Forbidden City, que nada mais é que um estilo de MMO onde as pessoas passeiam dentro de um espaço virtual destinado a recriar a cidade de Pequim, na China, em um palácio típico da região.
Verdade seja dita, não é sempre que o Brasil é bem representado nos videogames, mas há sempre uma ponta de curiosidade quando vemos um território familiar em um grande título, como em ''Modern Warfare 2'', por exemplo. Torcemos para que isso seja desenvolvido com mais veemência no futuro, bem como as produtoras brasileiras se animem a cada vez mais valorizar a cultura nacional, com dezenas de temas interessantes, em nome da criatividade.



