Nem todo mundo tem coragem, ou mesmo disposição, de participar de esportes radicais... e como jogar videogames dá a chance dos jogadores realizarem atividades maiores do que a vida – afinal de contas, se nem todo mundo pode ser um futebolista profissional ou piloto de caça, que dirá um guerreiro mágico em um mundo de fantasia medieval – a existência de games baseados nestas atividades arriscadas, como o skate popularizado pela série Tony Hawk, é bem justificada. No entanto, um esporte radical que é sub-representado no mundo dos games é o BASE Jumping, onde a sigla em Inglês se refere aos tipos de estruturas dos quais se pode saltar de paraquedas – prédios, antenas, pontes, penhascos – e realizar todo tipo de acrobacia aérea durante a queda livre.
Eis que o estúdio independente americano Dejobaan lançou "AaaaaAAaaaAAAaaAAAAaAAAAA!!!!! - A Reckless Disegard for Gravity" (ou "Aaaaa!", para resumir), sua releitura bastante inusitada e psicodélica sobre o esporte. Usando as setas do teclado e o mouse, o jogador tem como objetivo saltar de uma estrutura e passar o mais próximo possível de objetos do cenário – prédios, vigas, formações de pedra, e por aí vai – e aterrissar de paraquedas em um dos alvos apresentados no mapa. Vale notar que não estamos exagerando quando chamamos o jogo de "inusitado e psicodélico": ao invés de apresentar um visual hiperrealista, o estúdio resolveu seguir uma linha mais abstrata no visual, lembrando jogos como "Darwinia" e "Audiosurf" e abusando de um senso de humor bastante estranho.
Ao saltar, o jogador ganha pontos de formas variadas. As primeiras envolvem "abraçar" e "beijar" elementos do cenário – isto é, passar rente por uma estrutura longa como um paredão e por algo menor, como uma viga – durante a queda sem se estatelar no processo. Ao aterrissar com sucesso, o jogador ganha "dentes", os pontos do jogo que servem para comprar novas fases e equipamento. O menu de fases fica em uma grade cilíndrica de telinhas, e o jogador só pode comprar aquelas que estiverem adjacentes às que estão disponíveis. Com o tempo, é possível obter mais recursos que ajudam a garantir pontos adicionais.
Um deles é uma luva fosforescente que permite acenar para as pessoas durante a queda. É fácil identificá-los de longe, é um agrupamento de bonequinhos brancos... e o jogador descobre se são fãs ou protestantes. Apertar o botão direito e esquerdo do mouse serve para interagir com eles: os fãs devem ser cumprimentados com um sinal de "joinha", enquanto aqueles que te odeiam tem mais é que levar um gesto obsceno na fuça. Acertar isto rende mais pontos. Outro objeto que pode ser comprado é o spray, que permite grafitar os prédios do governo, bastando virar sua mira para ele e pressionar o botão do meio do mouse ou o Ctrl. Também há a cafeína, que serve de "bullet-time" após aquela dose tripla de espresso no meio da queda.
Além de passar de raspão em prédios e vigas e acenar para seu público, quebrar placas coloridas de pontuação também garante uma nota melhor ao fim da fase. Fases mais avançadas do game oferecem desafios extras, como esquivar de carros voadores, acertar pássaros em voo, usar portais de teletransporte para voltar para o topo da fase ou placas quicantes (aproveite para marcar pontos que ficaram faltando com estas duas!) e aí por diante. Além disto, vez por outra os estágios contam com rajadas de vento constantes que podem facilitar ou dificultar sua queda.
A versão de "Aaaaa!" oferecida no Steam conta com tabelas de recordes específicas a cada fase, além de algumas conquistas destrancáveis. A pontuação por si só já aumenta um bocado a longevidade do jogo, ainda mais porque às vezes você acha que está arrasando, realiza aquela aterrissagem digna de um paraquedista profissional... e você conseguiu apenas 2 estrelas de 5. Aí é jogar de novo a fase e descobrir onde estão as paradinhas escondidas – ou pelo menos não vistas antes – que valem aquela pontuação animalesca no final da fase. E o design de fases é bacana, pois sua crueldade faz sentido no contexto... mas prepare-se para revisitar fases e coletar "dentes" para todos os destrancáveis.
Nem só os estágios extras e os equipamentos são destrancáveis: alguns dos cubos relatam dicas para o jogo, e mostram curiosidades sobre o BASE Jumping, paraquedismo e atividades relacionadas a pessoas despencando de alturas e pousando em segurança. Outros extras são bem surreais, como um programa de meditação relaxante, um antirrelaxante, um guia do que fazer caso viaje no tempo sem saber, uma sinistra receita de biscoitos e como transportar um pequeno leitão sem chamar a atenção. Já mencionamos que o senso de humor do game é estranho? Pois é, mas a esquisitice do game não se resume às piadinhas destrancáveis... os menus, os nomes das fases ("Vingança pela Gripe Aviária", "Os Carros Estão Saindo das Árvores, Cara", etc...), nem mesmo os Steam Achievements fogem do humor nonsense.
O visual do game é bem atípico, e é relativamente simples para os padrões do PC de hoje – portanto, vai ter aquela parcela de jogadores que deve torcer o nariz. Cores fortes, texturas animadas, fotos do pessoal do estúdio ("esta é nossa advogada, tomara que não nos processe por botá-la no jogo"), textos em fontes bem "velha guarda", tudo tem um clima bem psicodélico e estranho... e se os prédios e demais construções ficam suspensas no ar, a esta altura do campeonato o jogador já deve ter entendido que a ideia nunca foi fazer uma representação fiel à realidade. O HUD do jogo também tem suas esquisitices conceituais, como um "overlay" nos cantos com uma variação do texto daquele clássico conto-do-vigário por email onde um príncipe / revolucionário / filantropo de algum país africano procura uma pessoa de bem para transferir uma gigantesca quantia em dinheiro.
A trilha sonora é igualmente esquizofrênica, porém divertida: os temas para pular de prédios vão de uma singela bossa nova ao rock pesado, passando pelo techno e pela música clássica. E como o humor do jogo prega, outras esquisitices – como a narração e as músicas dos extras destrancáveis citados acima, e o ocasional intervalo onde um locutor de rádio conta algum acontecimento atípico com uma voz deveras apática, para depois voltar à música normal. Além disto, efeitos como os fãs e protestantes comemorando ou resmungando quando você acena para eles, sons de ambulância quando o jogador se estatela fecham bem o pacote.
O estúdio independente Dejobaan pegou um esporte radical pouquíssimo aproveitado no mundo dos games – o BASE Jumping, que envolve saltar de paraquedas a partir de estruturas como prédios, antenas, pontes e penhascos – e criou algo que foge bastante do óbvio simulador de esporte. Em "AaaaaAAaaaAAAaaAAAAaAAAAA!!!!! - A Reckless Disregard for Gravity", a representação do mesmo é consideravelmente mais irreal do que os primeiros jogos da série "Tony Hawk" – onde manobras impossíveis de skate eram realizadas em ambientes realistas - ao criar um visual surreal, com prédios flutuantes, carros voadores, céus de neon e texturas computadorizadas. Enquanto parte dos jogadores torcerá o nariz para o visual simplista para os padrões dos PC de ponta, jogar um pouco e ir aprendendo as regras de jogabilidade é estranhamente envolvente. Em minutos, o jogador se vê tentando realizar as manobras radicais em queda: passar rente aos prédios, acenar para os fãs, quebrar placas, pichar paredes e ainda aterrissar em segurança. Some destrancáveis bem surreais e a boa e velha competição nos leaderboards do Steam e bingo: "Aaaaa!" é um passatempo bem divertido, valendo o salto de fé.










