Quando pensamos em ninjas nos games, logo nos vem à cabeça títulos como Ninja Gaiden, Shinobi, Shadow Dancer, entre outros. Claro, isso para ficar só nos mais clássicos, desde a era 8 bits. Os mais novos com certeza se lembrarão de Tenchu e de Naruto, o atual ninja de maior sucesso em todo o mundo. Além de games, o assunto é também tema de produções em diversas mídias como animês (Basilisk), filmes (Ninja Assassin), quadrinhos (Tartarugas Ninjas) e séries de TV (levanta a mão quem pensou em Jiraya!). Enraizados na cultura popular, os ''guerreiros das sombras'' são um dos produtos culturais de maior sucesso do Japão, herdado de sua época feudal. É curioso notar que, como criaturas únicas, tais personagens gerados em todas as mídias despertam o interesse de uma grande variedade de público, de crianças a adultos, cada um com sua motivação em saber mais sobre o assunto. Não por acaso, já que o tema é fascinante.
Ninjas, ou shinobi, eram guerreiros mercenários no Japão feudal. Eram especializados em invasão silenciosa e artes de guerra não muito convencionais. As principais funções de tais soldados eram de espionar, sabotar, infiltrar ou assassinar determinado alvo, tendo o combate direto como sua última diretriz em uma missão. A principal característica aparente de tais guerreiros era a constante roupa escura, geralmente com o rosto coberto para que não fossem identificados. Era comum utilizarem armas silenciosas, como shurikens (estrelas arremessáveis), makibishi (espinhos que são jogados no chão), kunai (um tipo de faca arremessável), entre outros aparatos leves e mortais. Seus principais inimigos consistiam em samurais, seus antagonistas naturais, que eram implacáveis, porém voltados para um combate mais direto e com um código de honra mais, digamos, ''honrado'', do que o dos ninjas. É interessante notar que guerreiros tão perigosos, implacáveis e ''maléficos'' tenham virado ídolos em alguns posteriores carismáticos personagens, como o próprio – e já citado – ninja Jiraiya, do famoso seriado exibido na extinta Rede Manchete. Obviamente, hoje existem escolas especializadas em ensinar tal arte que, por muito tempo, foi considerada ''das trevas'' e ''proibida'', mas nada que a poderosa globalização não resolva.
Não é a toa que, cada vez mais, tenhamos produtos comerciais voltados para este tema. O mais recente, nos games, no assunto principal, é Mini Ninjas, produção da IO Interactive, subsidiária da Eidos. O título é uma das coisas mais inesperadas que ocorreu este ano na indústria, por diversas razões. A primeira delas é ser produzido justamente pela IO, responsável por sucessos que prezam pela violência, como a série Hitman e Kane & Lynch. Estaria tudo bem se não fosse por um motivo: Mini Ninjas é voltado para um público mais infanto-juvenil, com apelo de visual simpático, violência quase zero (ou maquiada) e uma bela gama de elementos fofinhos. Difícil de acreditar que algo assim saiu da IO, certo? Mais difícil ainda é crer que o jogo seja bom, sobrevivendo em um grande mar onde a concorrência é cada vez mais acirrada e cruel com quem chega sem hype algum, sem apresentar algo que realmente chama a atenção. E, veja só você, Mini Ninjas surpreende, como um verdadeiro shinobi, e sai das sombras puxando o tapete de muitos que não estavam levando fé no produto final. Ao jogar, você terá a certeza de estar desfrutando de um verdadeiro jogo de qualidade, divertido como deve ser.
A começar pela história, simpática toda vida, o jogo já deixa claro que não tem muitas pretensões de ser grandioso, e sim de apenas divertir por algumas horas ou dias. Um grande lorde das trevas retornou de um passado longínquo, forçando o Grande Mestre Ninja a interferir para que suas terras não sejam dominadas. Com isso, o ancião envia alguns de seus melhores ninjas para derrotar o grande vilão. O problema é que nenhum deles – três no total – voltou. Resta ao Mestre enviar seus últimos dois guerreiros, Hiro (o termo vem da pronúncia de ''Hero'', ou ''Herói'' em japonês) e Futo (termo que vem de ''largo'', ou ''gordo'' em japonês), para salvar seus companheiros e, de quebra, derrotar o vilão que aterroriza sua terra natal. Mas a missão não será fácil, já que o vilão está capturando animais de todo o tipo para transformá-los em samurais sob seu controle. Vale notar a sacada em colocar os samurais (inimigos naturais dos ninjas), como os vilões do jogo.
No início de sua aventura, você controla apenas Hiro, o personagem principal da saga. O jogo começa com um tipo de tutorial que funciona como o último treinamento do pequeno ninja antes de iniciar sua jornada em busca dos seus irmãos e amigos. Tudo é bem explicado pelos moradores de sua vila (estranhos corvos humanóides) e seu Mestre Ninja. Isso funciona também para acostumar o jogador aos controles e à jogabilidade primária. Momentos depois, você se reunirá com Futo, que é chamado para te levar na jornada. Tão logo, você já é apresentado às diferenças entre os dois personagens e suas habilidades distintas. Futo, grande como ele é, será útil para limpar o caminho quando você estiver cercado por muitos inimigos. Já Hiro, o principal, é o único capaz de utilizar a Kuji Magic, poderosa habilidade ninja capaz de evocar poderes mágicos ou grandes técnicas únicas. Com o tempo, você resgatará seus outros três companheiros, cada um também com sua habilidade. São eles Suzume (seu nome vem de ''ave'' ou ''pardal''), que pode encantar inimigos com sua flauta para depois abatê-los; Tora (de ''Tigre'') é ágil com suas garras e golpes devastadores; Kunoichi (vem de ''ninja feminina''), hábil com uma lança para manter seus inimigos longe; enquanto Shun (de ''talentoso'') é um exímio atirador de flechas, além de ser o mais inteligente da turma.
Com isso, você começa o game com dois personagens e termina com cinco, e aqui temos um dos maiores charmes de Mini Ninja, tornando a jogabilidade criativa e variada, concedendo aos jogadores um bom ''catálogo'' de possibilidades de ataque ou defesa. E por falar em ataque e defesa, vamos aos combates. Neles, tudo ocorre de forma básica, com dois botões de ataque (um básico e outro secundário), botão de pulo, além de um botão para defesa. Habilidades especiais são ativadas ao carregar o ataque secundário, enquanto as magias de Hiro são utilizadas a partir de um pequeno menu selecionável nos botões superiores. Os inimigos são repetitivos, mas não de forma ruim, pois estão bem espaçados entre si. Quando encontrados fora de fortalezas, os inimigos estão sempre organizados em pelotões, com um líder maior e os guerreiros menores. Estes podem ser divididos entre guerreiros de luta corporal (lanças, espadas, etc) ou a distância (armas de fogo, flechas, e outros). O mais legal é que, ao ser derrotado, o oponente se torna novamente um dos animais da fauna local, no melhor estilo Sonic. O efeito não é gratuito, e na verdade faz parte da jogabilidade, graças ao leque de magias de Hiro.
Uma das principais Kuji Magic do herói é a de possuir animais. Hiro pode, literalmente possuir um animal próximo e se movimentar livremente com ele. Isso ajuda na hora de se esconder de inimigos, fugir mais facilmente, ou até atacar, com bichos maiores como o urso ou um javali. Outras técnicas de Kuji Magic envolvem magias de ataque (bola de fogo e raios, por exemplo), disfarce (uma moita mágica que encobre o personagem) ou a habilidade de localizar altares. Esta última é particularmente útil, já que é a partir de tais altares que são obtidos pergaminhos para aprender novas Kuji Magic. É possível atravessar o game sem eles, mas a tarefa será muito mais complicada.
Como verdadeiros ninjas, os personagens prezam pela furtividade (ainda que Futo seja um tanto desproporcional para a tarefa). Com isso, o elemento ''stealth'' foi incluído no game pela produtora, a fim de dar um tom mais realista à aventura e não torná-la um mero jogo de ''esmague botões para vencer os inimigos''. Em muitos casos é possível passar por um estágio sem ser visto por nenhum inimigo, andando abaixado pela grama ou disfarçado como um animal pequeno. Há até mesmo um troféu/conquista para esta tarefa (que garantimos, não será tão fácil). Não espere encontrar um sistema de furtividade como visto em Metal Gear, Assassin's Creed, e outros do gênero, a coisa aqui é bem básica, se resumindo a fugir dos olhos de qualquer inimigo, mas você não encontrará nada simplório. A produção foi caprichosa nesse sentido, e incluiu elementos como grama, telhados escaláveis e uma boa inteligência artificial nos inimigos. De certo, eles irão te procurar quando ouvirem algum barulho. Espere também pelo momento certo de atacar, pois é possível abater um grande número de oponentes sem que eles te vejam a partir de ataques surpresas, como manda o manual ninja.
O jogo carrega um ''QUÊ'' de Tenchu, graças à possibilidade de guardar itens que lhe ajudarão na jornada. À sua disposição estão bombas de fumaça, shurikens, makibishis e poções diversas. Nos cenários, você coletará itens aparentemente inúteis, mas que lhe servirão de forma prática mais tarde. Por exemplo, seu ninja encontrará flores, raízes e cogumelos pelo cenário, que são, na verdade, ingredientes para a criação de poções benéficas, com recipientes comprados em vendedores esporádicos espalhados pelo cenário. Falando em cenário, todos eles acompanham a fofura dos pequenos ninjas, com um belo e simpático design, combinado com os gráficos. Toda a arte do jogo faz um misto de cel-shading com um belo trabalho de texturas. Digamos que não seja um cel-shading puro, e sim com alguns efeitos extras. O design dos Mini Ninjas é uma das coisas mais simpáticas já feitas nos games. Os personagens são tão carismáticos que praticamente estão pedindo por um desenho animado (acorda, Eidos!), no melhor estilo Avatar, repleto de acrobacias e golpes. Os inimigos não ficam atrás, e carregam igual fofura. O trabalho feito na parte sonora é da mesma qualidade, com uma trilha sonora condizente, e com uma ótima dublagem. É extremamente divertido ouvir os oponentes gritarem ''Miniminiminimini Ninjaaaaaaaas!!!'', quando te enxergam ao longe.
Mesmo sendo um game altamente divertido e indicado para todas as idades, Mini Ninjas carrega alguns probleminhas chatos, como pequenos bugs pelo cenário (onde seu personagem pode ficar preso por algum tempo ou não conseguir passar). Outro defeito, se assim podemos chamar, é a ausência de um modo multiplayer. Fala sério, o jogo possui cinco personagens centrais e controláveis, isso praticamente demanda por um modo cooperativo. Por que não, IO? Por que não?
Mini Ninjas é uma dupla grata surpresa. Um game anunciado no início deste ano, que não agregou nenhum tipo de ''hype'', não fez feio. Muito pelo contrário, o título ganhou uma divulgação tímida, com poucas telas e sem muitos detalhes ou empolgação por parte do público gamer. Some isso ao fato da produtora responsável ser a IO Interactive, de jogos violentos como Hitman e Kane & Lynch, o que torna Mini Ninjas ainda mais inexplicável e inesperado. Se a ideia era fazer um game família, altamente jogável para todos os gostos, o pessoal do estúdio acertou em cheio. A aventura pode ser jogada por pais e filhos, hardcores e casuais, de forma que ninguém se sinta frustrado ou encontre grandes problemas. Para completar o pacote, pense em um game com gráficos polidos, agradáveis, e com um grupo de personagens altamente carismáticos. Mini Ninjas não é recomendado para qualquer um, é para todos.






