Mais ou menos seis meses após o lançamento do Wii nos Estados Unidos, a Nintendo lançou o WiiWare, serviço de distribuição digital de jogos originalmente feitos para o console. Um de seus títulos de estreia foi "LostWinds", uma produção do estúdio britânico Frontier Developments, fundado por David Braben (conhecido por criar o clássico simulador espacial "Elite"). Na ocasião, o game impressionou por uma série de razões: o visual refinado que deixaria certos títulos vendidos no varejo rubros de vergonha – lembre-se que estamos falando de jogos com limite máximo de 40 megabytes contra outros vendidos em DVDs que têm limites máximos de 4.7 a 8.5 gigabytes – e a jogabilidade interessante, envolvendo o controle do vento para guiar o personagem, interagir com o ambiente e aí por diante. No entanto, a curta duração e a ausência de um mapa tiveram seu peso na reputação do mesmo.
Eis que mais de um ano depois de lançado, a Frontier lança LostWinds: Winter of the Melodias, uma sequência com uma série de melhorias. No entanto, a história não começa com o jovem Toku, e sim com Riveren. Este personagem da espécie Melodia pode usar o poder do canto para ativar pedras mágicas e derrotar inimigos... mas assim que a introdução jogável termina, voltamos a controlar o herói original da série. Desta vez, Toku descobre que Magdi – sua mãe – está desaparecida após partir em uma expedição ao norte de Mistralis. Contando com a ajuda de seus amigos, ele é levado a congelada Summerfalls. Mas espera aí: "summer" é verão em Inglês, certo? Por que está tão frio, então? E repleto de monstros, ainda por cima? Este mistério está ligado ao povo Melodia, e o jogador descobrirá a razão.
Tanto Toku quanto Enril, o espírito do vento, tem alguns alguns novos truques na manga. Desta vez, o herói pode nadar e mergulhar, o que é uma ótima pedida para caçar algumas das 48 estatuetas escondidas. Já Enril pode evocar pequenos ciclones – basta pressionar A+B e girar o Remote para fora da tela – e estes têm várias funções... a mais óbvia a se imaginar é levantar Toku no ar, facilitando o acesso a terreno mais elevado. Já as outras são mais interessantes: é possível formar nuvens de chuva ao criar ciclone sobre rios e lagos. Com isto, o jogador pode carregar água de um lugar para outro, seja para regar uma planta ou mesmo para improvisar outro laguinho no terreno adequado. A outra função é perfurar terrenos de cascalho, abrindo novos caminhos.
Mas a grande novidade de "Winter of the Melodias" é o sistema de estações do ano. Como citamos acima, Summerfalls está em um inverno eterno (a ponto do jogador precisar ficar perto de tochas e afins para manter o calor, ou o herói pode morrer congelado, pelo menos no comecinho do jogo), porém adiante na aventura jogo os jogadores precisam da ajuda de Sonté, o espírito da natureza que fez esta friaca dos infernos chegar para ficar... pelo menos foi por uma boa razão. Depois de convencer Sonté, o jogador pode usar estátuas em certos pontos do cenário para alternar entre verão e inverno, oferecendo enigmas de mundo duplo que seguem a mecânica de clássicos como "The Legend of Zelda: A Link to the Past".
Nesta brincadeira de alternar as estações, lagos congelados que serviam de superfície para caminhas podem ser explorados com mergulho, assim como partes inacessíveis sem determinados poderes, como prega o gênero "metroidvania" - e a inclusão de um mapa marcando o que já é conhecido e os novos objetivos é extremamente bem-vinda. Cachoeiras então intransponíveis viram paredes de gelo, e estas podem ser quebradas: basta o jogador ver se a área tem neve caindo, desenhar um círculo no ar e criar uma bola, arremessando-a. Outros enigmas ainda mais elaborados envolvendo os poderes que citamos até agora estão garantidos, mas não vamos estragar a experiência para o leitor. Podemos dizer que os puzzles são bastante recompensadores e satisfatórios.
Uma das reclamações do original – a duração curta – foi contornada de maneira inteligente. Além do esquema do mapa ser um pouco maior (e com mais possibilidades, graças ao sistema de estações), o jogo ofereceu mais atividades. Missões extras ligadas à trama, como ajudar os moradores de uma vila em troca do objeto necessário da vez, deram mais variedade. Além disto, uma parte envolve controlar um segundo personagem indiretamente, apontando com o vento onde ele deve ir, se ele deve ficar parado, usar sua habilidade especial, e aí por diante. Os inimigos também são mais variados desta vez: os Glorbs, bolhas negras, voltam nas suas formas originais, mas também ganham outras variedades... versões de fogo e água, além de uma versão gigante – tudo bem, comparativamente aos originais, mas ainda assim maiores que Toku - e mais difícil de derrotar.
Em nossa experiência de jogo, foi possível vencê-lo em aproximadamente 4 horas e meia, sem a caça extensa a todas as estátuas escondidas – que desta vez têm uma motivação a mais. Enquanto o jogo original apresentava 24 destas, "Winter of the Melodias" oferece 48; a cada duas encontradas, uma ficha de personagem e seu modelo 3D são destrancados na opção "Secrets" do menu principal. Também é possível achar as 12 páginas do diário de Magdi, revelando mais detalhes da trama, mas estas quase sempre são mais fáceis de encontrar do que as estatuetas. No geral, as melhorias da sequência ficaram bem claras, valendo a espera.
O visual do jogo está ainda melhor que o anterior. O design das fases ajuda nisto, e ver a disparidade de cenários verdejantes e cores quentes contra o azulado da neve no mesmo local reforça isso. A versão gélida do mundo mostra colunas de gelo em primeiro plano, dando a devida atenção aos efeitos de distorção do que passa por trás dela; já no clima quente é possível ver reflexos da superfície da água nas paredes das cavernas, distorção sob a água, e por aí vai. As animações de personagem, como o gigante Magmok – que te leva a Summerfalls no tutorial - e o vilão, também são bem bacanas. Sem contar a nova roupa contra o frio que Toku recebe, que é bem estilosa. A trilha sonora continua no mesmo esquema de antes, misturando instrumentos de sopro e tambores, alternando sons suaves e mais agitados dependendo da situação.
"Winter of the Melodias" foi melhorado de forma tal que fica difícil achar seus reais deslizes. No entanto, é válido citar alguns: um deles envolve "reaprender" o esquema de usar o vento para fazer com que Toku salte e alcance terrenos mais elevados. Não, nada mudou em relação ao anterior neste sentido, tem mais a ver com acostumar-se de novo – felizmente, depois de quebrar um pouco a cabeça no começo, depois se torna algo natural e menos passível de erros.
A Frontier conseguiu de novo. LostWinds: Winter of the Melodias mostrou, mais uma vez, algo mais bem acabado do que muito jogo vendido no varejo para o console da Nintendo. A jogabilidade continua interessante, e a combinação do sistema de estações do ano (alternando entre inverno e verão) com os novos poderes de Toku e Enril oferecem enigmas muito inteligentes. Há mais variedade nas atividades, como missões diferentes para ajudar os moradores de Summerfalls, e mesmo uma sequência onde é necessário controlar outro personagem indiretamente. Os problemas mais notáveis do original – a duração curta e a ausência de um mapa – foram resolvidos, assim como extras destrancáveis. O audiovisual está melhor que o de seu antecessor, com detalhes de distorção no gelo e água, reflexos do rio em cavernas, e a óbvia disparidade entre o clima das duas estações na mesma área. O deslize digno de nota é o reaprendizado dos controles – afinal, o anterior já saiu tem mais de um ano – e o vento, às vezes um pouco desobediente. Ainda assim, "Winter of the Melodias" é um dos melhores – se não o melhor – título de WiiWare deste ano.










